Blog Comer Sem Culpa

14/02/2011

Obesidade - Pressão Alta - Colesterol Elevado

Doenças semelhantes e resultados diferentes no tratamento

 O colesterol e a hipertensão arterial tiveram seus tratamentos assegurados com um grande, poderoso e seguro arsenal medicamentoso. A dieta não tem mudado ao longo dos últimos 30 anos e o sal ainda não  foi reduzido nos alimentos industrializados. O consumo de gordura também não sofreu redução e as pessoas nunca foram tão sedentárias como agora. Esses fatores podem comprovar que o que vem funcionando no tratamento dessas duas doenças crônicas são as novas classes de medicamentos. Subsidiadas pelos governos, embasadas pela pesquisa científica, bem conhecidas da classe médica e bem aceitas pelos pacientes.    

Com a obesidade os desafios são maiores. Os medicamentos específicos são muito poucos e de segurança duvidosa. Nos últimos 15 anos, apenas quatro medicamentos para a obesidade receberam registro das agências reguladoras em todo o mundo, a Dexfenfluramina, o Rimonabanto, a Sibutramina e o Orlistat. No Brasil, a primeira foi suspensa após 5 anos de uso, devido a constatação de causar lesões nas válvulas cardíacas, o segundo foi suspenso em menos de um ano, após as observações de causar problemas psiquiátricos e a cada dia aumenta o cerco à Sibutramina, uma vez que ela teve sua comercialização suspensa em vários países.

Recentemente, dois novos e promissores medicamentos foram reprovados pelo FDA após quase dez anos de pesquisa. Para conseguir um medicamento eficaz e seguro, que cumpra com as normas do FDA nos Estados Unidos, são pesquisados cerca de 5000 a 10000 compostos químicos, no mínimo 8 a 12 anos de estudos e avaliações, entre 350 a 500 milhões de dólares de investimento. Mesmo assim, a aprovação desses medicamentos pode ser suspensa após vários anos de pesquisa.

Os diferentes resultados alcançados no controle da obesidade, hipertensão arterial e colesterol elevado nos chamam a atenção para a necessidade de maiores investimentos em medicamentos contra a obesidade. Enquanto esses medicamentos não são disponíveis, precisamos investir na melhoria do estilo de vida das pessoas e na prevenção da doença. Isso deve iniciar na infância e deve envolver governos, indústria de alimentos, profissionais de saúde e a própria família. 

Por Citen às 10h09

11/02/2011

Novos dados da obesidade no mundo. Fica uma pergunta no ar

 

 

Na primeira semana de fevereiro saiu os resultados do último grande estudo sobre  obesidade no mundo. Somos meio bilhão de adultos obesos acima de 20 anos, um em cada 10 adultos. Isso significa que a proporção de obesos dobrou nos últimos 30 anos. Os números são de uma pesquisa publicada na última semana na revista científica The Lancet, baseada em dados epidemiológicos de vários países que incluem mais de 9 milhões de participantes. Ao mesmo tempo, um dado curioso chamou a atenção dos pesquisadores em outros dois estudos: a queda dos índices de hipertensão arterial e de colesterol nos países desenvolvidos nesse mesmo período.

O estudo foi realizado por pesquisadores americanos, ingleses e suíços e revela que em 2008 mais de uma pessoa em cada dez, na população mundial adulta, já era obesa, com maior porcentagem entre as mulheres. Entre os países ricos, os Estados Unidos aparecem  em primeiro lugar, desde 1980, na taxa de obesidade, enquanto a população japonesa se mostra como a menos afetada pelo problema. O Brasil está na 19ª posição no ranking mundial de obesidade masculina e na 15ª posição na obesidade feminina.

Esses dados nos levam a uma análise crítica da nossa metodologia e de nosso arsenal de tratamento da obesidade. Estamos perdendo a guerra contra esse mal, que responde pela grande incidência paralela de diabetes e elevadas taxas de  mortalidade potencialmente evitáveis no mundo.

O que poderia explicar o sucesso na redução das taxas de colesterol e pressão arterial e o fracasso na redução do peso das pessoas? Obesidade, colesterol e hipertensão arterial são doenças crônicas muito semelhantes em suas causas e consequências. Todas associadas a estilos de vida inadequados com sedentarismo, stress e erros alimentares. Todas dependem de reeducação alimentar, atividade física e medicamentos. Então, com tantas semelhanças, o que poderia explicar o avanço da obesidade no mundo, tendo em vista a redução das duas outras doenças?

 

 

Por Citen às 08h46

08/02/2011

Porque não devemos recomendar o uso diário do álcool

Na última semana nós escrevemos várias vezes sobre álcool e os seus possíveis benefícios à saúde. Em todas elas, nós não conseguimos deixar de alertar para os conhecidos riscos inerentes do hábito de beber. Não fazemos apologias contra o consumo social e eventual de bebida alcoólica, pois não há como negar a delícia de uma taça de vinho ou de uma cerveja bem gelada compartilhada com os amigos ou familiares. Mas não podemos deixar de nos posicionar contra o uso do álcool como remédio e sua prescrição por parte dos profissionais de saúde.

A Dra Marie Pasinski, médica especializada em neurologia do Massachusetts General Hospital, chama a atenção para o equívoco dos posicionamentos, inclusive da classe médica, de que o vinho e o álcool, usados moderadamente e regularmente, poderiam fazer bem à saúde. Principalmente ao coração e ao cérebro. Segundo a médica, um fato incontestável é a natureza neurotóxica do álcool. Álcool em excesso causa lesões no sistema nervoso, em particular, nas células responsáveis pela memória e caso não haja uma redução no consumo, a demência é uma conseqüência natural. Em alguns estudos com Ressonância Nuclear Magnética nós podemos notar a atrofia cerebral causada pelo álcool em bebedores moderados. Lesões ainda mais graves podem ocorrer em cérebros de adolescentes com a ingestão intensiva do etanol.

A tolerância individual ao álcool é muito variável e doses menores do que aquelas ditas moderadas podem aumentar a morbidade e a mortalidade, propiciar acidentes, aumentar a violência urbana e doméstica, estimular a atividade sexual de risco e predispor ao  abuso e à dependência do álcool.

Para as mulheres, os trabalhos mostram um aumento do risco de câncer de mama, fígado, boca, garganta e esôfago quando elas ingerem uma dose diária, seja ela de vinho, cerveja ou destilados. A conclusão desses estudos pelo National Cancer Institute foi de que “ do ponto de vista do risco de câncer, não há uma ingestão alcoólica segura”. Pode-se argumentar que esse também é um estudo observacional e, portanto, como aqueles que falam a favor do consumo do álcool, pode ser muito falho. Apesar disso, serve pelo menos para não deixar as pessoas tão seguras quanto aos tão propagados benefícios do consumo regular do álcool e aos profissionais de saúde, para deixarem de fazer tal recomendação aos seus pacientes.

 

Por Citen às 20h42

06/02/2011

O que há de tão especial nos vinhos tintos?


Há realmente substâncias comprovadamente benéficas. Estamos falando de um tipo especial  de antioxidante, o resveratrol. A ele são dedicados muitos dos louvores dos efeitos benéficos do vinho tinto como o aumento do colesterol protetor (HDL colesterol), redução do mau colesterol (LDL colesterol), redução da formação de coágulos e dilatação dos vasos sanguíneos. Todos esses efeitos estão envolvidos na prevenção das doenças cardiovasculares.

Apesar das descrições dos possíveis efeitos protetores do vinho tinto, a maioria dos estudos foi realizada em animais que receberam uma dosagem de resveratrol muito superior do que aquelas que poderiam ser alcançadas por pessoas bebendo muito além da moderação.

O resveratrol é apenas um dos antioxidantes do grupo dos polifenóis presentes no vinho tinto. Esses antioxidantes também são encontrados nas frutas vermelhas, no suco de uva, nos chocolates amargos, no alho e na cebola, conferindo a todos eles uma referência em proteção cardiovascular. O consumo sugerido para atender as recomendações de polifenóis seria 30mg/dia, ou seja, uma taça pequena de vinho tinto,  100g de cebola,  200g de frutas vermelhas,  60g de chocolate ou cerca de 2 litros de chá por dia.

Dentre todos esses alimentos, o vinho tinto talvez seja o mais estudado e com resultados mais promissores, demonstrando um provável benefício na proteção cardiovascular. Infelizmente, o consumo diário de qualquer bebida alcoólica traz consigo os riscos do abuso e da dependência, com todos os seus resultados trágicos para as famílias e para a sociedade, tornando os seus benefícios difíceis de serem avaliados, frente aos seus riscos inerentes.

Por Citen às 22h11

04/02/2011

Comportamento moderado na vida e no álcool

Beber moderadamente não é uma tarefa tão simples. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o consumo moderado de álcool significa 2 duas doses diárias para os homens e 1 dose diária para as mulheres ou até quatro doses para eles e três doses para elas em um único evento. Uma dose equivale a uma lata de cerveja, 150ml de vinho e 45ml de bebida destilada.

É bem conhecida a dificuldade de algumas pessoas em beber qualquer quantidade de bebida alcoólica. Outras, entretanto, não conseguem parar nas doses definidas como moderadas. Isso causa uma grande dúvida a cerca da possibilidade de algumas pessoas beberem moderadamente.

De acordo com o sociólogo Kaye Middleton Filmore,da Universidade da Califórnia, quem bebe moderadamente, tende a fazer tudo certo – eles fazem atividade física, não fumam, comem bem e bebem moderadamente.Daí fica difícil entendermos o papel do álcool na saúde dessas pessoas, além do fato delas terem um estilo de vida tão saudável e regrado.

Ser moderado é, na verdade, um grande desafio. Não somente no consumo de álcool, mas também nos alimentos. Basta observarmos as pessoas que preferem não comer nada a comer pouco. Nas palavras da poetisa mineira Adélia Prado, nós podemos ter uma noção da dificuldade em ser moderado: “Confesso: ficar sem comer eu fico e agüento, quatro dias já fiquei, por penitência, por vaidade. Comer pouco, não. É me crucificar com prego rombudo.”

Assim, as orientações de beber moderadamente podem ser seguidas ou não e naqueles que não conseguem seguir a cartilha dos moderados o risco pode ser grande. De acordo com  as citações do Dr George Lundenberg,  além de todos os riscos inerentes ao consumo moderado e freqüente do álcool, os dados apontam que de cada 10 pessoas que consomem álcool regularmente, uma se torna dependente e de cada 10 pacientes dependentes, pelo menos um deles manifestou a dependência após a primeira ingestão alcoólica. 

Por Citen às 12h14

02/02/2011

Porque ainda temos tantas dúvidas a cerca dos efeitos benéficos do álcool?.

Os trabalhos científicos são muito diferentes entre si. Por isso mesmo é que nós ouvimos conclusões opostas a cerca de um mesmo tema. Um dia o café faz mal à saúde, no outro dia o café faz bem a saúde.  Isso, confunde pesquisadores e torna inseguros médicos e pacientes.

Os estudos que correlacionam o consumo freqüente de álcool com saúde e sobrevida são também difíceis de serem avaliados, pois se baseiam em observações. Os chamados estudos observacionais. Esse tipo de trabalho científico coleciona vários resultados falhos. Um exemplo é o estudo que avaliou os benefícios e riscos da terapia de reposição hormonal em mulheres na menopausa. Por décadas, nós acreditamos que essa reposição seria benéfica, mas quando os estudos deixaram de ser observacionais e passaram a formas mais criteriosas de avaliação, nós descobrimos que a realidade era exatamente o inverso disso, ou seja, que as mulheres que faziam uso da reposição hormonal desenvolviam mais câncer de mama e doenças do coração.

Infelizmente, nenhum estudo com critérios científicos rigorosos foi realizado até hoje com o álcool. Alguns cientistas até entendem a necessidade. Uma possibilidade seria recrutar um grande grupo de abstêmios para que passem a tomar uma dose diária de álcool e sejam comparados com grupos que permaneceriam sem beber por um longo período de tempo. Entretanto, essa é uma idéia pouco plausível. Existem problemas práticos e éticos em dar álcool a abstêmios sem impor riscos a eles.

 Muitas abordagens dos estudos existentes são confusas e chegam a conclusões equivocadas.  Um exemplo dessa dificuldade foi demonstrada pelo Dr Tim Naimi, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos. Ele comparou consumidores  moderados de álcool e abstêmios e encontrou dois grupos tão diferentes que simplesmente não poderiam ser comparados. Em seus resultados, pessoas que bebem com moderação são mais saudáveis, mais ricas e mais instruídas, inclusive recebem melhor assistência médica em relação aos abstêmios. Em suma, deve haver muitas outras razões para explicar o fato das pessoas que ingerem álcool moderadamente serem mais sadias e que isso pode não ter nada a ver com o consumo alcoólico!

Essas questões ainda precisam ser esclarecidas para que um médico possa receitar ao seu paciente um consumo moderado de álcool. 

Por Citen às 16h11

Ir para UOL Ciência e Saúde

Sobre o blog

Comer corretamente pode parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje. O tempo é curto, a ansiedade generalizada e as informações são, muitas vezes, simplistas e tendenciosas, idealizando alguns alimentos e difamando outros. Esquecemos da premissa que, em Nutrição, não existem alimentos ruins, e sim dietas inadequadas. A idéia deste blog é esta - mostrar que a dieta ideal é possível e prazerosa. Juntos, podemos controlar calorias e balancear os nutrientes, respeitando as nossas emoções.

Sobre as autoras

Dra. Ellen Simone Paiva -

Endocrinologista e nutróloga, diretora do Citen (Centro Integrado de Terapia Nutricional). Mestre na área de Nutrição e Diabetes pela USP e especialista em Transtornos Alimentares pela Unifesp. Colunista dos sites Minha Vida, Guia do Bebê e do Blog de Especialistas da Dican.


Dra. Amanda Epifânio Pereira -

Nutricionista, especialista em Nutrição de Doenças Crônicas pelo Hospital Israelita Albert Eistein e em Transtornos Alimentares pela Unifesp.

Histórico