Blog Comer Sem Culpa

13/10/2011

Novas evidências dos malefícios dos suplementos vitamínicos

Uma a uma das vitaminas em cápsulas vem se revelando como um  grande equívoco  quando o assunto é prevenção de doenças. Agora é a vez da vitamina E. Ela acaba de sofrer mais um duro golpe em sua credibilidade como suplemento vitamínico ao ser associada a um aumento do risco de câncer de próstata. 

Acaba de ser publicado no Journal of American Medical Association, JAMA, os resultados de um grande estudo multicêntrico chamado SELECT. O estudo avaliou 35.000 homens durante sete anos com o objetivo de confirmar a hipótese de que a vitamina E e o Selênio pudessem agir na prevenção do câncer de próstata. Os resultados foram diametralmente opostos à hipótese inicial pois houve um aumento significativo dos casos desse tipo de câncer nos homens que utilizavam suplemento de vitamina E quando comparados ao grupo  que recebeu placebo.

O Selênio não foi poupado nesse trabalho científico, pois um grupo de 8000 pacientes usou esse suplemento, também com a expectativa de ser protetor. Mais uma decepção. O Selênio também não foi protetor e foi associado a um maior risco de câncer de próstata, embora sem a força estatística demonstrada pelo grupo que recebeu a vitamina E.

Esses resultados não são nenhuma novidade. Em 2005 a maior vedete das vitaminas antioxidantes já havia sofrido um grande abalo, quando um estudo  publicado na revista Annals of Internal Medicine, analisando 136.000 pacientes, revelou que doses iguais ou superiores a 400UI de vitamina E poderiam aumentar a taxa de mortalidade por todas as causas e deveriam ser evitadas.

Para reforçar o coro contra os suplementos vitamínicos, em fevereiro de 2007, uma grande revisão de 385 trabalhos científicos com 232.600 pacientes foi publicada no mesmo jornal  do estudo SELECT, avaliando o efeito antioxidante dos suplementos vitamínicos sobre a taxa de mortalidade por doenças em geral. O resultado só veio confirmar os estudos anteriores: “o tratamento com beta caroteno, vitamina A e vitamina E pode aumentar a taxa de mortalidade... Não há evidência de que a vitamina C possa aumentar a longevidade... O papel potencial do selênio ainda necessita de futuros estudos”, informava o artigo nas palavras de seus autores.

Esses resultados são contundentes em revelar que a história do ditado  “ se não fizer bem, mal não faz” é totalmente furada.  É preciso uma maior cautela das prescrições médicas de vitaminas, conscientização das pessoas sobre os riscos desses suplementos e rigor das agências reguladoras na legislação do uso dos suplementos e suas propagandas. Já está na hora de todos esses segmentos da sociedade -  médicos, pacientes e agências reguladoras – entenderem que a aura de inofensivos dos suplementos vitamínicos não passa de um grande engano. 

Por Citen às 09h39

11/10/2011

As diferentes formas do açúcar

A sacarose é a responsável pelo sabor adocicado dos doces e alimentos industrializados que tanto agrada nosso paladar. Não existe diferença em sua concentração no mel, açúcar refinado, açúcar cristal, açúcar mascavo ou açúcar orgânico. Todos eles têm as mesmas quantidades de calorias, logo, as mesmas chances de engordar as pessoas. Apesar disso cada qual tem algumas  características peculiares:

·    O açúcar refinado é o resultado de um processo químico que retira da garapa a sacarose branca e adiciona produtos químicos como clarificantes, antiumectantes, precipitadores e conservantes;

·         Os açúcares cristal e  mascavo são mais saudáveis do que o refinado por não conterem adição de produtos químicos utilizados no refino;

·         O açúcar mascavo também contém micronutrientes, enquanto o açúcar refinado não contém nutriente algum;

·         O açúcar light tem o diferencial de ser menos calórico, por incorporar um adoçante não calórico no seu preparo, na proporção de 50%;

·         O açúcar orgânico é extraído da cana de açúcar em cujo plantio não são usados adubos, nem fertilizantes químicos;

·      O processo de industrialização do açúcar orgânico é idêntico ao do açúcar cristal comum, ou seja, livre de cal, enxofre, ácido fosfórico, folímetro e outros elementos adicionados ao produto refinado. Não há, portanto, vantagens no açúcar orgânico em relação ao açúcar cristal comum. 

Por Citen às 20h35

10/10/2011

O poder arrebatador do açúcar

 

Sempre nos perguntamos o porquê da esmagadora preferência das pessoas por alimentos doces. Sabemos, por exemplo, que os bebês demonstram instintivamente reações de prazer ao serem alimentados com alimentos adocicados e que se provermos uma gestante com grande quantidade de doces, seu bebê será mais predisposto a gostar das guloseimas do açúcar. Na Europa, há uma prática de se oferecer água adocicada aos bebês, quando eles vão tomar injeções, pois parece que o açúcar pode alterar o humor deles, além de conferir-lhes certa ação anestésica.

A nossa percepção do sabor doce começa nas papilas da língua e são levados até receptores cerebrais que codificam o sabor prazeroso. Esses receptores são os mesmos que respondem aos efeitos prazerosos  do álcool, tabaco e cocaína. Isso poderia explicar a preferência das pessoas que comem doces compulsivamente, ou seja, que comem apenas pelo prazer de saborear determinados alimentos.

No cérebro, os alimentos doces aumentam os nossos níveis de serotonina, um neurotransmissor que desempenha um importante papel na regulação do humor, do sono, da sexualidade e do apetite.  Assim, alimentos doces, agindo direta ou indiretamente, através da serotonina, parecem  melhorar o humor das pessoas.

As estatísticas revelam que 60% das pessoas tem preferência pelos doces e a indústria dos alimentos intuitivamente, ou talvez mais sistematicamente,  entendeu isso muito bem, tanto é que milhares de alimentos nos supermercados são enriquecidos com sacarose, para atender à demanda dos paladares.

Apesar de muitas pessoas declararem que são dependentes de doces e chocolates, não há  nenhuma evidência conclusiva a cerca desse poder aditivo do açúcar. O que sabemos é que dentre os três macronutrientes de que dispomos no cardápio - carboidratos, gorduras e proteínas - os carboidratos, que englobam também os doces, são os alimentos de mais rápida saciedade, ou seja, voltamos a sentir fome muito mais rapidamente quando nossa refeição é constituída basicamente deles.

 

Por Citen às 13h24

06/10/2011

O Premio Nobel de Medicina 2011 explica os efeitos da imunidade em doenças endócrinas como diabetes e hipotireoidismo

É bem conhecido o nosso poder de reação contra substâncias estranhas e microorganismos que entram em contato com o nosso corpo. Trata-se de nossa defesa natural e com a qual nascemos e nos protegemos. Reagimos de forma semelhante quando nos sentimos ameaçados e registramos em nossa memória imunológica essas substâncias que chamamos de antígenos. Elas chegam aos pulmões através da respiração, ao intestino através da alimentação e até pelo simples contato com a pele.  Contra elas, o nosso sistema imunológico reage através de vários mecanismos, entre eles, o mais conhecido é a formação de anticorpos.

Uma situação bem diferente e estranha é a nossa reação desencadeada contra nossas próprias células. Em algum momento, passamos a reconhecer algumas de nossas células como corpos estranhos e iniciamos um processo de defesa totalmente impróprio e que culmina com a destruição das mesmas. Em endocrinologia, isso ocorre em várias glândulas, que são atacadas por anticorpos dirigidos contra elas, os auto-anticorpos. Essa reação imune acaba por destruir essas células glandulares, acarretando a perda de sua função, privando o organismo dos hormônios específicos de cada uma delas.

Esse processo gera o diabetes insulino-dependente e a tireoidite autoimune com hipotireoidismo. No primeiro caso, os auto-anticorpos destroem o pâncreas e no segundo, o alvo é a glândula tireóide. Parte desse mecanismo pode ser compreendida através das pesquisas que receberam o Prêmio Nobel de Medicina no dia 3 outubro de 2011. Um dos pesquisadores, o Dr. Ralph Steinman demonstrou e isolou a célula que expõe as substâncias que seriam os antígenos, contra os quais criamos os auto-anticorpos. O Dr. Steinman faleceu três dias antes da divulgação do prêmio, mas deixou um legado de possibilidades para o desenvolvimento de terapia específica para doenças até hoje desafiadoras.

No Brasil, uma pesquisa internacionalmente reconhecida foi levada adiante pelo grupo do Dr. Julio Cesar Voltarelli, médico imunologista do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Nela os pacientes diabéticos tipo I foram submetidos à imunossupressão para impedir justamente a destruição do pâncreas pelos auto-anticorpo dos próprios pacientes. Esse é um exemplo das inúmeras possibilidades que estão surgindo para o tratamento de doenças endócrinas envolvendo a imunologia. 

Por Citen às 20h45

05/10/2011

A proibição dos medicamentos emagrecedores no Brasil

Finalmente a novela da proibição dos medicamentos emagrecedores chegou ao fim. Foram muitos meses de debates e argumentação da maioria das sociedades médicas que cuidam dos pacientes obesos para que a Anvisa reavaliasse sua posição inicial de proibir todos os medicamentos emagrecedores com ação no sistema nervoso central. Ontem, dia 04 de outubro, o veredito foi revelado e a decisão poupou a sibutramina e aboliu os demais redutores de apetite conhecidos como derivados da anfetamina, o femproporex, a anfepramona e o mazindol.

Os medicamentos que tiveram seus registros cancelados são comercializados no Brasil há mais de 30 anos e são conhecidos por seus potentes efeitos redutores do apetite e estimulantes do sistema nervoso central. Com tanto tempo de uso, esses medicamentos são bem conhecidos e nada deles nos escapa da observação clínica. Sabemos muito bem quem pode ou não utilizá-los e os próprios pacientes fazem a seleção natural da possibilidade de uso, uma vez que seus efeitos colaterais são bem definidos.

O uso dos derivados anfetamínicos sofreu redução significativa após a descoberta da sibutramina há cerca de 15 anos e principalmente após a proibição de sua associação com os ansiolíticos. Atualmente, esses medicamentos tem sua indicação restrita a um pequeno número de pacientes que os tolera muito bem e com um efeito emagrecedor muito bom. Infelizmente, sabemos que seu uso continua ocorrendo sob a forma de prescrições irregulares, sem uma vigilância adequada e com o aval da pouca informação de alguns pacientes.  

Quando discutimos as formas ideais de perda de peso, nós descobrimos que elas são de muito difícil execução. Ninguém prefere tomar remédios, porque gosta deles. A maioria das pessoas que toma remédios para emagrecer declara não conseguir seguir um plano alimentar e mudar estilo de vida. A obesidade é uma doença crônica como o diabetes ou a hipertensão arterial. Não se pode ter tanto preconceito com o tratamento medicamentoso da obesidade como vem ocorrendo. É bem certo que há erros médicos, de vigilância e dos próprios pacientes. Mesmo assim, esses pacientes precisam de tratamento e para muitos deles, esse tratamento só é possível com o uso de medicamentos.

Nós entendemos que a proibição não resolverá o problema do abuso de medicamentos para emagrecer. O uso indevido e clandestino continuará ocorrendo. A decisão da Anvisa punirá justamente quem segue os ditames da agência reguladora Inicialmente a Anvisa estava firmemente decidida a proibir todos os medicamentos emagrecedores disponíveis no Brasil. Após grande reação da classe médica envolvida no tratamento da obesidade, resolve proibir os derivados da anfetamina.

O problema da obesidade deve ser encarado com maior cuidado e sem tanto preconceito. Precisamos conseguir fazer vigilância. Não nos pergunte como, pois não sabemos. Não é esse o nosso papel. O nosso trabalho foi sempre multidisciplinar e a Nutrição sempre teve um destaque em nossa equipe. Sabemos muito bem da grande dificuldade que enfrentamos para o tratamento da obesidade. Não podemos abrir mão dos medicamentos e tratar a obesidade apelando apenas para a força de vontade dos nossos pacientes, como se eles fosses obesos por falta de força de vontade. A história é muito mais complexa e envolve os tempos modernos, a política de alimentos, a indústria alimentícia, o trabalho nas empresas e a estrutura das famílias. É muito simplista dizer que médicos e pacientes estão errados e devem ser punidos com a suspensão dos medicamentos. Porque usam mal, porque são irresponsáveis, porque não tem força de vontade. Precisamos educação nas escolas, regras mais rigorosas à indústria de alimentos e de uma legislação que pare de punir os pacientes e seus médicos e enfrentem o problema da obesidade em todas as suas vertentes.

Por Citen às 08h30

04/10/2011

As queixas de saúde da vida moderna

Nossos pacientes estão sofrendo de um mal de difícil diagnóstico. Suas queixas são vagas, mas de muito sofrimento. Alegam cansaço, desânimo e irritabilidade. Apesar de subjetivas, elas trazem o paciente ao médico e não podem ser negligenciadas. Mesmo assim, é muito difícil reuni-las em uma hipótese diagnóstica.

Não preenchem os critérios da psiquiatria para um quadro depressivo, não há disfunção hormonal, nem déficit vitamínico. Os exames, na maioria das vezes são todos normais. Mas há sofrimento e a possibilidade real de que possam evoluir para quadros de doença manifesta. Assim, os pacientes podem chegar com um quadro dermatológico de urticária, uma alteração gastrintestinal como gastrite ou a chamada síndrome do intestino irritável e podem até evoluir para uma reação depressiva ou ansiosa.

Por trás de tudo isso há um estilo de vida alucinante e cruel. Cargas de trabalho muito além do tolerável, privação de sono, alimentação de má qualidade e poucas oportunidades de lazer. Nesse contexto, nossos pacientes se equilibram e buscam ajuda e nós, profissionais de saúde, nos sentimos extremamente impotentes frente aos seus males, pois não aprendemos a tratar doenças em uma esfera de tamanha subjetividade. Aliás, nem reconhecemos se estamos diante de um quadro de stress que acaba em doença, ou se por acaso não estamos percebendo uma doença de base que gera stress.

Assim, a vida moderna exige dos profissionais que atendem a esses pacientes uma visão além da anatomia, alcançando os reflexos do stress na saúde das pessoas. Isso torna possível um diagnóstico correto e uma abordagem terapêutica que alivie sua dor e possibilite sua recuperação. 

Por Citen às 08h20

Ir para UOL Ciência e Saúde

Sobre o blog

Comer corretamente pode parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje. O tempo é curto, a ansiedade generalizada e as informações são, muitas vezes, simplistas e tendenciosas, idealizando alguns alimentos e difamando outros. Esquecemos da premissa que, em Nutrição, não existem alimentos ruins, e sim dietas inadequadas. A idéia deste blog é esta - mostrar que a dieta ideal é possível e prazerosa. Juntos, podemos controlar calorias e balancear os nutrientes, respeitando as nossas emoções.

Sobre as autoras

Dra. Ellen Simone Paiva -

Endocrinologista e nutróloga, diretora do Citen (Centro Integrado de Terapia Nutricional). Mestre na área de Nutrição e Diabetes pela USP e especialista em Transtornos Alimentares pela Unifesp. Colunista dos sites Minha Vida, Guia do Bebê e do Blog de Especialistas da Dican.


Dra. Amanda Epifânio Pereira -

Nutricionista, especialista em Nutrição de Doenças Crônicas pelo Hospital Israelita Albert Eistein e em Transtornos Alimentares pela Unifesp.

Histórico