Blog Comer Sem Culpa

29/11/2011

Legislação e educação para reverter o triste cenário do diabetes no mundo

Legislação e educação. É tudo o que precisamos para combater a obesidade e o diabetes no mundo. Atitudes isoladas e pontuais,  tentativas individuais ou familiares de mudanças no estilo de vida, todas elas esbarram em dificuldades imensas. Sem uma legislação que envolva governos, indústria de alimentos e publicidade, não conseguiremos ganhar essa guerra. Por outro lado, sem uma educação eficiente desde a infância, onde se envolvam as escolas e os pais, não alcançaremos a maturidade com as ferramentas de que precisamos para nos engajar eficientemente nessa guerra.

O cenário é alarmante e as projeções não deixam por menos. Atualmente, os Estados Unidos tem 72% dos homens e 63% das mulheres com sobrepeso ou obesidade. As projeções para 2020 são de um aumento de cerca de 10%, ou seja, 83% dos homens e 72% das mulheres acima do peso. Isso significa muito mais do que um povo fora dos padrões estéticos. Isso significa um povo doente.

Nesse cenário de obesos, o diabetes tem o campo perfeito para ampliar seus tentáculos. Atualmente, os Estados Unidos contam com 62% dos homens e 43% das mulheres com elevação do açúcar no sangue, uma grande parte deles já diabéticos. Para 2020, as projeções dão conta de um aumento desses números para 77% dos homens e 53% das mulheres com diabetes ou num estágio muito próximo dele.

No Brasil, assim como em vários países emergentes as estatísticas não alcançam tais números absolutos, mas a progressão tem sido muito mais rápida. Logo, estaremos em patamares para primeiro mundo nenhum botar defeito.

O coração continua sendo o alvo maior da obesidade e do diabetes. Outros fatores concorrem para que as mortes por doenças cardiovasculares ainda estejam em primeiro lugar em todo o mundo. Os medicamentos que reduzem o colesterol e que controlam a pressão arterial conseguiram nas últimas 4 décadas uma estabilidade e até redução das mortes por doença cardiovasculares. Entretanto, os últimos dados norte americanos revelam que apesar do otimismo inicial, pela primeira vez nesses quarenta anos, houve um aumento das mortes por doenças cardiovasculares entre os adultos jovens (de 35 a 44 anos), principalmente nas mulheres. Isso é totalmente novo e parece nos impor um retrocesso de tudo aquilo que evoluímos.

A explicação para tal cenário é bem conhecida. A obesidade nas fases mais precoces da vida.  São as crianças e os adolescentes obesos de hoje as maiores vítimas futuras das complicações que possivelmente reduzirão suas expectativas de vida.  

Por Citen às 19h02

25/11/2011

O início do diabetes pode definir sua evolução

Uma grande parte dos pacientes diabéticos não sabe que tem a doença. Vivem anos com glicemias elevadas e completamente assintomáticos. Outros, apesar de saberem da alteração na glicose do sangue, não vêm nisso um problema, ou uma doença. Descrevem como uma “pequena alteração” e convivem com ela sem grandes preocupações.

Recentemente, temos encontrado evidências contundentes de que essa permissividade  com as elevações do açúcar no sangue, muito comuns na fase inicial da doença, pode marcar para sempre a memória de suas células, principalmente aquelas sujeitas às agressões crônicas da hiperglicemia como rins, retina e membros inferiores. Esse efeito é tão importante na evolução da doença que nos faz acreditar que após um longo período inicial de negligência no controle do açúcar no sangue, muito pouco podemos fazer para prevenir as lesões crônicas futuras que levam à incapacidade dos nossos pacientes.

São bem conhecidas e temidas as seqüelas do diabetes mal controlado, de maneira que quase nada podemos fazer frente à falência renal, a não ser a hemodiálise e o transplante; diante das lesões de retina que levam à cegueira; frente ao infarto agudo do miocárdio e muito menos nas graves lesões periféricas que resultam em amputações.

Muitas vezes não entendíamos o porque de alguns pacientes diabéticos sofrerem tais conseqüências apesar de estarem relativamente bem compensados e manterem glicemias consideradas normais. Hoje nós sabemos que muito provavelmente eles sofrem das conseqüências da memória metabólica de suas células lesadas no início da doença através de um descontrole glicêmico prolongado.

No momento, o melhor que podemos fazer por esses pacientes é um diagnóstico precoce e um tratamento eficaz desde o início das pequenas alterações no açúcar do sangue. Essa atitude tem o poder de conscientizar e salvar o futuro desses pacientes. 

Por Citen às 19h22

24/11/2011

A cirurgia bariátrica no tratamento do diabetes

Obesidade e Diabetes tipo 2 estão intimamente associados e, à medida que um paciente obeso alcança graus progressivos de peso ele se aproxima mais e mais do diabetes. O contrário também é verdadeiro, uma vez que à medida que um paciente diabético obeso perde peso, ele melhora progressivamente o seu controle glicêmico. Logo, obesidade e diabetes são doenças interligadas, de maneira que o agravamento de uma impossibilita o tratamento da outra, ao passo que ao conseguirmos deter a evolução de uma, estaremos mais propensos a conseguir também o controle da outra. Daí a vantagem da correção da obesidade do paciente diabético.

Os efeitos da cirurgia bariátrica no tratamento do diabetes foram observados desde o início da sua utilização. Inicialmente pensávamos que esses efeitos se dessem apenas pela grande perda de peso que ocorre após o procedimento cirúrgico. Mas a observação do pós operatórios dos pacientes diabéticos submetidos a cirurgia bariátrica revelou que a normalização da glicemia ocorria muito antes da perda de peso. Essa constatação vem fazendo da cirurgia um procedimento válido e eficaz no tratamento dos pacientes com diabetes tipo 2.

A melhora do diabetes ocorre em todas as modalidades de cirurgia bariátrica, mas é muito rápida nas técnicas cirúrgicas com desvio do trânsito intestinal como na cirurgia de Capela. Essa melhora na glicemia se deve a vários mecanismos além da perda de peso, como por alterações na dinâmica de alguns hormônios produzidos pelo estômago e intestino delgado, levando a redução da glicemia com a consequente redução ou suspensão dos vários medicamentos usados para o tratamento do diabetes, inclusive insulina. Essa melhora é evidente nos pacientes que ainda tem capacidade de produzir insulina, e menos intensa nos pacientes com diabetes  tipo 2 com evolução prolongada ou em uso de insulina por muito tempo. As estatísticas apontam para uma taxa de remissão do diabetes de 70 a 90% dos casos.

Um grande engano é pensar que a cirurgia bariátrica representa a cura da obesidade ou do diabetes. Ela é uma das modalidades de tratamento, com indicações precisas. Entretanto, requer monitorização contínua devido ao risco nutricional progressivo causado pela má absorção dos nutrientes que passa a ocorrer ao longo da vida desses pacientes.  

Por Citen às 22h04

22/11/2011

O tratamento nutricional do diabetes

A dieta assusta tanto o diabético quanto o uso da insulina. Mas a boa notícia é que atualmente a dieta do diabético passou a ser muito mais tolerável e praticável. Os tabus anteriores cederam lugar para uma forma de se alimentar muito semelhante às dietas saudáveis prescritas para as pessoas não diabéticas.

O que mais chama a atenção na orientação nutricional dos diabéticos é que os carboidratos podem ser consumidos, mas precisam estar na medida certa e contabilizados de acordo com os medicamentos utilizados. Quanto mais carboidratos, mais medicamentos, inclusive insulina. Abolir os carboidratos também não é a saída, pois além de muito importantes, a ausência deles impõe às dietas uma sobrecarga de proteínas e gorduras que trazem consigo muitos outros problemas.

Onde estão os carboidratos? Muito além dos doces e açúcar refinado, eles estão na maioria dos alimentos. Do Arroz a uma inocente fruta. Dos pães às barras de cereal. Do macarrão aos legumes. Tudo tem carboidrato. Daí a impossibilidade de evitá-los. Os diabéticos precisam aprender a identificar suas porções e substituí-las adequadamente. Precisam entender que ele deve estar presente em todas as refeições, mas não deve ultrapassar 50% do valor calórico da mesma.

Para o diabético insulino-dependente a dieta passou a ter muita flexibilidade e versatilidade desde o advento das novas insulinas e com a contagem dos carboidratos. Eles aprendem que a regra básica é que devem utilizar uma unidade de insulina para cerca de 15 gramas de carboidratos ingeridos. Aprendem também que essa necessidade de insulina reduz muito com a atividade física e que estão comendo errado quando necessitam mais do que 0,7 a 1 unidade de insulina  por quilo de peso corporal por dia. 

Para o diabético não insulino-dependente ou tipo 2, a dieta deve atender ao objetivo básico de alcançar e manter o peso ideal, além de atender aos princípios de uma dieta saudável, prescrita para qualquer outra pessoa do mesmo sexo, idade e peso corporal que não tenha diabetes.

Por Citen às 21h01

21/11/2011

O fantasma da hipoglicemia na vida dos diabéticos

De repente, quando menos se espera, o mal estar aparece. Durante o passeio no parque, na escola, no supermercado ou na academia. Pode ser sutil como uma sensação de fome súbita, uma dor de cabeça leve, uma certa irritabilidade.  Na criança, poder se manifestar apenas como desatenção nas aulas antes do intervalo, quando ela normalmente se alimenta. Mas os sintomas podem nos surpreender pela agressividade, como fadiga, tremores, tonturas, palpitações, sudorese intensa, visão embaçada ou dupla, dormência nos lábios, desorientação e perda da consciência. Considera-se hipoglicemia os níveis de glicose abaixo de 60mg/dL e elas podem ocorrer nas seguintes condições:  

(1)        Atividade física além do normal, inclusive caminhadas despretensiosas no shopping;

(2)        Redução do volume, atraso  ou a suspensão de uma refeição;

(3)        Vômitos ou diarréia, que impedem a absorção dos alimentos;

(4)        Consumo de bebidas alcoólicas;

(5)        Uso de insulina ou medicamentos orais em doses maiores que as necessárias.

Para a maioria das crianças diabéticas e seus pais, a hipoglicemia noturna é a complicação aguda mais temida. As necessidades de insulina durante o sono não são constantes. Isso propicia quedas glicêmicas perigosas entre 2 e 4 horas da madrugada que podem passar despercebidas, devido ao próprio sono e à natural elevação da glicemia pela manhã. Manifestações de hipoglicemia noturna podem ocorrer como pesadelos, sudorese noturna ou dores de cabeça pela manhã.

Todo paciente diabético já apresentou quedas do açúcar no sangue. A orientação é que todos eles devem levar consigo alguma fonte de carboidratos de absorção rápida como balas ou tabletes de glicose na bolsa ou na mochila. No caso dos diabéticos insulino-dependentes, há um medicamento injetável que é muito útil no tratamento das hipoglicemias, o Glucagon. Ele é especialmente importante nas crianças, quando a hipoglicemia pode desencadear crises convulsivas e perda da consciência, dificultando a ingestão de alimentos ricos em açúcar. O Glucagon é um hormônio que eleva a glicemia e é encontrado sob a forma injetável.

Há casos graves de hipoglicemia que o paciente perde a consciência e a única saída e levá-lo a um Pronto Socorro o mais rápido possível, para que ele possa receber glicose por via endovenosa. A característica mais marcante nesses casos, além da perda da consciência é a sudorese profusa e palidez, além é claro, da surpreendente normalização instantânea da consciência com a injeção de glicose.   

Quando se trata de hipoglicemias, o mais importante é a prevenção dos episódios. Quanto mais justas e normais forem as glicemias de um paciente com diabetes, maior a probabilidade de ele vir a ter algum episódio de hipoglicemia. Pacientes com glicemias elevadas geralmente não têm esses episódios. Isso não significa que devemos deixar glicemias elevadas para evitar hipoglicemias. Os cuidados para a prevenção da hipoglicemia se resumem em monitorar adequadamente as glicemias, evitar atrasos nas refeições ou a suspensão de algumas delas, fazer lanches mais ricos em carboidratos antes dos esportes ou atividades físicas e caminhadas que não fazem parte da rotina dos pacientes.

O objetivo do tratamento do diabetes é alcançarmos glicemias o mais próximas do normal possível e prevenir adequadamente as hipoglicemias. 

Por Citen às 10h51

18/11/2011

Monitorização das glicemias: a garantia do controle do diabetes

Após a descoberta da insulina, pensávamos ter encontrado a cura do diabetes. Ledo engano. Logo descobrimos como era difícil deixar as glicemias normais ao longo do dia e que as oscilações glicêmicas poderiam causar danos irreparáveis aos órgãos dos pacientes com diabetes. A partir daí, nós passamos a travar uma luta diária no sentido de alcançarmos glicemias normais antes e após as refeições.

Assim, quando ultrapassamos o desafio inicial do tratamento do diabetes,  passamos a enfrentar um inimigo muito mais difícil. Silencioso, progressivo e fatal. As complicações crônicas que passam a ocorrer com o prolongar da vida. Estamos falando da falência renal, da cegueira, das amputações e das  várias complicações crônicas do diabetes. Todas elas causadas pelas elevações crônicas do açúcar no sangue desses pacientes, muitas vezes imperceptíveis e assintomáticas.

A glicemia do diabético é extremamente variável ao longo do dia. Sobe e desce várias vezes de acordo com a alimentação - principalmente estimulada pelo seu conteúdo em carboidratos - do tempo de jejum, da atividade física, do estresse - físico ou psíquico - e até mesmo em função das próprias oscilações hormonais que ocorrem durante o dia.

Os pacientes diabéticos precisam entender que não dá para medir a glicemia apenas em jejum, nem muito menos uma vez ao mês ou a cada 3 meses como muitos ainda fazem. Precisamos saber dos valores da glicemia diariamente, no meio da madrugada, antes e após as várias refeições diárias. Na dependência do tipo de tratamento, algumas vezes basta uma medida diária da glicemia, desde que ela seja feita em horários diferentes todos os dias.

Há cerca de 25 anos foi lançado no Brasil o primeiro glicosímetro desenvolvido para medir as glicemias dos pacientes em casa. Hoje, esses aparelhos cabem dentro de nossa mão, têm várias funções associadas, armazenam dados, acionam alarme nos extremos glicêmicos de risco e, recentemente, puderam ser implantados no subcutâneo, garantindo a monitorização contínua, a nova tendência no controle glicêmico. Hoje sabemos que a monitorização glicêmica é a melhor ferramenta para alcançarmos um controle glicêmico normal e prevenirmos as complicações crônicas do diabetes.

Por Citen às 08h36

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Sobre o blog

Comer corretamente pode parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje. O tempo é curto, a ansiedade generalizada e as informações são, muitas vezes, simplistas e tendenciosas, idealizando alguns alimentos e difamando outros. Esquecemos da premissa que, em Nutrição, não existem alimentos ruins, e sim dietas inadequadas. A idéia deste blog é esta - mostrar que a dieta ideal é possível e prazerosa. Juntos, podemos controlar calorias e balancear os nutrientes, respeitando as nossas emoções.

Sobre as autoras

Dra. Ellen Simone Paiva -

Endocrinologista e nutróloga, diretora do Citen (Centro Integrado de Terapia Nutricional). Mestre na área de Nutrição e Diabetes pela USP e especialista em Transtornos Alimentares pela Unifesp. Colunista dos sites Minha Vida, Guia do Bebê e do Blog de Especialistas da Dican.


Dra. Amanda Epifânio Pereira -

Nutricionista, especialista em Nutrição de Doenças Crônicas pelo Hospital Israelita Albert Eistein e em Transtornos Alimentares pela Unifesp.

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