Blog Comer Sem Culpa

30/01/2012

As dores dos diabéticos

São bastante conhecidas as complicações diabéticas relacionadas aos olhos, aos rins e ao coração. Nesse contexto, há uma lacuna de informações no que se refere às dores dos diabéticos. Não estamos nos referindo às dores e dificuldades no enfrentamento da doença, estamos falando da neuropatia diabética, uma complicação muito pouco discutida e pouco diagnosticada, mas muito freqüente nesses pacientes.

O diabetes é uma doença que compromete especialmente nossa capacidade de sentir dor. É bem conhecida a possibilidade de o diabético ter um infarto sem nenhum sintoma doloroso. Essa redução na sinalização da dor também pode ocorrer nos membros inferiores e pés e, muitas vezes, um pequeno calo ou bolha na planta do pé pode evoluir silenciosamente para uma ulceração, dificultando o tratamento e a cicatrização já comprometida pela doença.

Mas é claro que o maior incômodo para os pacientes diabéticos não é a analgesia progressiva e sim as dores que passam a ocorrer com a cronicidade da doença.  Isso se deve a lesões nas pequenas fibras nervosas causadas pela glicose cronicamente elevada.  Os sintomas podem ser muito leves ou se manifestarem apenas como câimbras freqüentes. Também podem aparecer como um formigamento nas pernas e pés, principalmente à noite. Outras vezes, a sensação é de uma queimadura nas pernas, sem que haja qualquer lesão de pele para explicar tal fato. Finalmente, a dor pode se apresentar tão intensa que é descrita como lacerante e pode comprometer o sono e todas as atividades da vida diária dessas pessoas.

Todos esses são sinais de que a cronicidade do diabetes e das elevações das taxas de açúcar no sangue são suficientemente freqüentes e duradouras para lesar os pequenos nervos das pernas. As altas taxas de glicose no sangue desses pacientes parecem ser os fatores causais mais importantes. Há também fatores genéticos, nutricionais e comportamentais envolvidos, mas todos eles com participação secundária.

A grande dificuldade que encontramos no tratamento desses pacientes é que basicamente o que temos são medicamentos analgésicos, que passam a ser utilizados diariamente, muitos deles de difícil tolerância. Nenhum medicamento conseguiu mudar a evolução das dores e das lesões nos pequenos nervos periféricos. A melhor conduta ainda é a prevenção através de um tratamento nutricional e medicamentoso adequados, que garanta a normalização do perfil de glicemias e proteja os 30% dos diabéticos que são acometidos pelas dores da neuropatia.

Por Citen às 21h11

26/01/2012

Os energéticos em alta e os riscos do consumo abusivo

Segundo os dados da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas Não Alcoólicas (ABIR), o consumo dos energéticos saltou em 25% no último ano no Brasil. Essas bebidas são compostas por cafeína, guaraná, ginseng, açúcar ou adoçante e aminoácidos como a taurina e carnitina, dentre outros. Todos associados com a promessa de oferecer disposição extra a estudantes, baladeiros e esportistas.

Na verdade, o maior efeito dos energéticos fica por conta da cafeína. Essas bebidas contêm 70 a 80mg de cafeína por 240ml, cerca de três vezes o encontrado em refrigerantes do tipo cola. Além disso, essas bebidas contem suplementos também ricos em cafeína como o guaraná, o que acrescenta uma quantidade extra de cafeína que não costuma ser declarada nos rótulos do produto, resultando em doses muito maiores do que poderíamos supor.

Altas doses de cafeína causam  estímulo do Sistema Nervoso Central, insônia, aumento da frequência cardíaca, tremores e um efeito dito termogênico irrisório. Ou seja, ela é muito mais energética (ou seja, nos dá mais energia) do que termogênica (ou seja, que aumenta a queima calórica). Tanto é assim que já foi usada há muitos anos em fórmulas emagrecedoras e foi abolida dos receituários médicos, uma vez que seus efeitos colaterais excitatórios eram muito maiores do que sua suposta ação termogênica. 

Enquanto aumenta a preocupação de pais e médicos, as vendas explosivas das bebidas energéticas alcançaram a marca dos 9 bilhões de dólares nos mais de 140 países em todo o mundo em 2011. Como explicar esse avanço dessas bebidas quando as agências reguladoras, cada vez mais rigorosas, cancelam medicamentos e monitoram alimentos, baseadas na proteção à saúde das pessoas? Acontece que essas bebidas são colocadas como suplementos alimentares. Não são remédios nem alimentos, fugindo assim do braço forte da vigilância.

Será que os resultados na redução do peso corporal e na melhora da disposição e vitalidade são satisfatórios com doses tão elevadas? De acordo com um trabalho científico publicado recentemente na revista Pediatrics, esses benefícios não superam os riscos. O efeito termogênico da cafeína não parece levar a perda de peso e os efeitos colaterais encontrados foram graves o bastante para que os pesquisadores concluíssem pela necessidade de uma regulamentação rigorosa na comercialização e consumo desses suplementos.

Na verdade, para muitos jovens, a ingestão ocasional dos energéticos não causa nenhum sintoma ou risco à saúde, mas para outros mais susceptíveis, a ingestão abusiva ou associada ao álcool pode levar a efeitos graves, como temos deparado em prontos socorros. São muitos os relatos de adolescentes e adultos jovens, atendidos nessas unidades de emergência com taquicardia, irritabilidade, ansiedade, insônia e até mesmo convulsões. Todos eles foram em busca de energia e de um corpo perfeito, que alcançariam da mesma forma e sem riscos se optassem pela malhação e alimentação equilibrada. 

Por Citen às 13h23

20/01/2012

O rigor e o viés dos trabalhos científicos

Nós sempre defendemos o ato médico baseado em evidência. Não podemos ser empíricos ao conduzirmos o tratamento dos nossos pacientes. Precisamos nos basear em conceitos e conhecimentos amplamente demonstrados pelas pesquisas científicas. Mas não se iludam, nem tudo que reluz é ouro e a ciência não foge à regra.

Uma denúncia anônima em 2008 levou a uma investigação que apontou, através de um relatório de cerca de 60 mil páginas, mais de 100 atos de falsificação em um dos mais importantes estudos científicos que relacionava o reverastrol do vinho tinto à longevidade das pessoas. O estudo foi conduzido pelo Dr Dipak, diretor do Centro de Pesquisa Cardiovascular da Universidade de Connecticut. Após o fato, o reitor Philip Austin passou a esclarecer a comunidade científica a cerca das fraudes e suas conclusões manipuladas. Isso significa que voltamos a estaca zero a cerca desse possível antioxidante, uma vez que vários outros trabalhos foram realizados a partir desses resultados, e, portanto, perderam também a credibilidade.

Outro grande problema dos estudos científicos são seus patrocinadores e seus conflitos de interesses. Não podemos tirar conclusões seguras quando a indústria patrocina trabalhos de avaliação dos seus próprios produtos. Seria o mesmo que a Souza Cruz patrocinasse um trabalho para avaliar os efeitos deletérios do tabaco, ou a Ambev bancar uma pesquisa a cerca dos benéficos do consumo crônico do álcool.

Muitos estudos científicos são baseados em observações de grupos populacionais. Os chamados estudos observacionais. Esse tipo de trabalho científico coleciona vários resultados falhos. Um exemplo é o estudo que avaliou os benefícios e riscos da terapia de reposição hormonal em mulheres na menopausa. Por décadas, nós acreditamos que essa reposição seria benéfica, mas quando os estudos deixaram de ser observacionais e passaram a formas mais criteriosas de avaliação, nós descobrimos que a realidade era exatamente o inverso disso, ou seja, que as mulheres que faziam uso de reposição hormonal desenvolviam mais câncer de mama e doenças do coração.

Os trabalhos científicos são muito diferentes entre si. Por isso mesmo é que nós ouvimos conclusões opostas a cerca de um mesmo tema. Um dia o café faz mal à saúde, no outro dia o café faz bem a saúde.  Isso confunde pesquisadores e torna inseguros médicos e pacientes e ocorre¸ principalmente, pelo fato de que muitos trabalhos não obedecem aos critérios de segurança estatística, não comparam indivíduos saudáveis com possíveis doentes e não mantém os dados em segredo dos pesquisadores para se evitar o risco de avaliações tendenciosas. Finalmente, todos esses possíveis erros na metodologia dos trabalhos científicos devem ser analisados pelo olhar crítico dos profissionais de saúde habituados ao rigor e ao revés dos mesmos. Mesmo assim, muitos de nós caímos em armadilhas de falsos cientistas e seus trabalhos manipulados e o reverastrol é o mais recente deles. 

Por Citen às 15h54

16/01/2012

O difícil consenso em nutrição – os laticínios na berlinda


Há poucos meses a universidade de Harvard nos EUA lançou um comunicado se posicionando contra a decisão recente dos especialistas em nutrição do ministério da agricultura dos Estados Unidos que incluíram um laticínio em seu novo guia alimentar. Esse novo guia substituiu a Pirâmide Alimentar e passou a ter o formato de um prato, sendo chamado My Plate e incluiu um laticínio.

Para entendermos a discussão e suas nuances, precisamos entender o que são as Recomendações Nutricionais, as RDAs. Elas são reconhecidas como importantes índices que nos indicam os níveis ideais dos nutrientes essenciais para manter nossa saúde. O cálcio é um bom exemplo disso e tem tudo a ver com a inclusão dos laticínios nos programas que alimentação saudável. As RDAS desse mineral são de 800 a 1300mg/dia para adultos.

A partir daí, nós podemos entender a importância do leite e dos seus derivados em uma alimentação saudável. Compare as concentrações de cálcio nos principais alimentos fontes e imagine a dificuldade em montar um cardápio que alcance as recomendações do mineral diariamente sem os laticínios. Depois, siga o principal ensinamento da nutrição saudável que é compor cardápios variáveis. Nem precisa ser um profissional da Nutrição para entender isso.

300mg de cálcio em média

•           1 copo de 200ml leite

•           1 pote de 200ml iogurte

•           1 fatia de 50 gramas de queijo

Outros alimentos fonte de cálcio, além dos laticínios

•           100g de feijão branco cozido  – 90mg de cálcio

•           100g de couve manteiga crua – 145mg

•           100g de brócolis cru – 47mg

•           100g de peixes (sardinha, manjuba, traíra) – 500mg

Daí a nossa surpresa quando em setembro de 2011 a Universidade de Harvard se pronuncia contra a inclusão dos laticínios como um componente da alimentação saudável, alegando que esse detalhe seria visto como um lobby dos produtores desses alimentos. Então podemos pensar em lobby dos agricultores ou dos piscicultores caso resolvemos montar um cardápio com 200 gramas de sardinha ou quatro pés de couve diariamente para atendermos as recomendações de cálcio. Ou o que é ainda mais inconsistente, passar a usar leite de soja suplementado com cálcio, mesmo podendo usar um leite desnatado e que já vem com o cálcio da própria natureza. Seria então o lobby da soja? E olhe que ele é também poderoso!

O mais impressionante foram as argumentações. A primeira seria pelo alto teor de gorduras saturadas, o que é totalmente improcedente, pois não há na indústria de alimentos nenhuma que evoluiu tanto quanto os laticínios desnatados. A gordura deixou há muito tempo de ser um problema nos laticínios. A segunda, seria a maior incidência de câncer de próstata e de ovário entre os usuários dos laticínios, uma vez que esses dados vem de estudos populacionais, que não devem ser utilizados para tomar condutas médicas. Esses estudos servem apenas para conduzir estudos de intervenção.

Fazer uma dieta com couve, peixe e feijões não deixa de ser saudável, mas impraticável pela sua monotonia dos alimentos fontes de cálcio e mesmo assim não consegue alcançar as RDAs do mineral. Suplementar o cálcio? Mas isso sim, seria o absurdo frente as nossas amplas fontes naturais de cálcio nos laticínios  e às evidências recentes da maior incidência de doença coronariana em pessoas que fazem essa suplementação.

Os pesquisadores da Harvard também levantaram a dúvida de que os laticínios não previnem a osteoporose. Ora, o que sabemos é que o cálcio sim, é um dos mais importantes fatores de prevenção da osteoporose. É claro que vitamina D, alimentação saudável, atividade física, genética favorável e o hormônio feminino são todos protetores. Mas não temos dúvida quanto ao papel do cálcio, uma vez que temos matriz óssea mineralizada apenas com ele. Ou será que alguém pode produzir cálcio no corpo e prescindir da ingestão do mineral? Então, não fomos submetidos a uma lavagem cerebral para acreditar que laticínios fazem bem, nós estudamos e comprovamos isso.

É claro que há a alergia à proteína do leite e que ocorre ao nascimento, mas ela geralmente desaparece com a idade. È claro que há a intolerância à lactose e ela aumenta com a idade. Mas não estamos falando sobre isso, nem sobre esses pacientes. Estamos falando de pessoas normais e que podem se beneficiar muito da ingestão do leite e derivados. Não temos nada contra as dietas vegetarianas estritas, temos muitos pacientes vegetarianos e veganos que não consomem leite e os respeitamos quando eles alegam questões ecológicas, religiosas, pessoais ou de intolerância. Entretanto, precisamos rever todos os nossos conhecimentos para aceitar a hipótese de que leite faz mal para a maioria das pessoas, pois isso não procede, ou que somos os únicos animais que ingerem leite na vida adulta, pois isso é uma absoluta falta de argumentos. 

Por Citen às 11h24

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Sobre o blog

Comer corretamente pode parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje. O tempo é curto, a ansiedade generalizada e as informações são, muitas vezes, simplistas e tendenciosas, idealizando alguns alimentos e difamando outros. Esquecemos da premissa que, em Nutrição, não existem alimentos ruins, e sim dietas inadequadas. A idéia deste blog é esta - mostrar que a dieta ideal é possível e prazerosa. Juntos, podemos controlar calorias e balancear os nutrientes, respeitando as nossas emoções.

Sobre as autoras

Dra. Ellen Simone Paiva -

Endocrinologista e nutróloga, diretora do Citen (Centro Integrado de Terapia Nutricional). Mestre na área de Nutrição e Diabetes pela USP e especialista em Transtornos Alimentares pela Unifesp. Colunista dos sites Minha Vida, Guia do Bebê e do Blog de Especialistas da Dican.


Dra. Amanda Epifânio Pereira -

Nutricionista, especialista em Nutrição de Doenças Crônicas pelo Hospital Israelita Albert Eistein e em Transtornos Alimentares pela Unifesp.

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