Blog Comer Sem Culpa

13/02/2012

O poder da intervenção clínica precoce na prevenção do diabetes

Apesar da evolução tecnológica e do conhecimento médico avançado, nós ainda fazemos muito pouca medicina preventiva. Muitas vezes porque nos deparamos com o fato consumado, a doença instalada. Outras vezes porque os primeiros sinais clínicos sugestivos da mesma, não nos dão mais nenhuma chance de prevenção.

A principal exceção a essa regra é o diabetes, pois ele sinaliza dia a após dia, durante longos meses e anos a sua proximidade, como que desafiando nossa capacidade de proteger nossos pacientes ou zombando da tal evolução tecnológica e do conhecimento científico. Felizmente um olhar mais atento e cuidadoso a esses pacientes pode mudar a história anunciada de diabetes e comprovar que nossa medicina preventiva funciona sim, pelo menos com essa doença.

O nome “pré-diabetes” deixa claro do que se trata: uma condição em que o sujeito está prestes a se tornar diabético. A alteração mais comum nessas pessoas é o aumento do peso corporal, uma gordura estranhamente localizada na cintura, associada, muitas vezes, a membros normais ou até desproporcionalmente magros. Além disso, chama a atenção para o risco da doença a presença de algumas alterações nos exames laboratoriais: elevação dos níveis dos triglicérides associados a queda no colesterol bom (HDL colesterol), elevação do ácido úrico e de insulina. O pâncreas da pessoa com pré- diabetes passa a produzir níveis progressivamente elevados de insulina, o que garante glicose normal durante muitos anos e impede que o diagnóstico de diabetes seja feito durante muito tempo. Enfim, são pessoas com todas as características do diabetes, mas com glicose normal no sangue. Hoje nós já sabemos que mesmo sem a elevação da glicemia, característica dos diabéticos, essas pessoas já têm os riscos daqueles, principalmente o risco cardiovascular.

A boa notícia e que precisa ser alardeada aos quatro cantos é que podemos prevenir o diabetes. Que a doença não tem cura, pelo menos por enquanto, mas tem prevenção. Isso nós podemos observar todos os dias, quando reconhecemos pequenos sinais sugestivos e decidimos por intervir. O grande problema, entretanto, é a banalização desses pequenos indícios da proximidade do diabetes.

Nos preocupa muito, quando nossos pacientes descrevem de forma ingênua que tem “uma pequena elevação na glicemia”, “ diabetes emocional” ou “uma leve tendência do diabetes”. São frases soltas, que se formam em suas mentes, mas que muitas vezes foram ditas por colegas muito pouco afeitos à possibilidade de prevenção da doença. Para essas pessoas, à beira do diabetes, a intervenção médica precoce pode ser o diferencial entre um futuro com ou sem diabetes. 

Por Citen às 09h38

09/02/2012

O que temos a aprender com o grande bebê chinês


No último sábado, uma mulher chinesa deu à luz um bebê com 7kg e o fato ganhou as manchetes da mídia de todo o mundo e foi descrito como um recorde do país, amplamente conhecido por seus altos índices de obesidade infantil e diabetes. Será que alguém ainda entende por saudável um bebê desse tamanho? Por incrível que pareça, os pais declararam-se felizes justamente pelo filho ser tão “forte”.

Para dar uma idéia da gravidade do quadro do bebê em questão, toda criança acima de 4kg já merece cuidados especiais, bem como sua mãe. Nenhuma criança com essas proporções corporais pode ser considerada normal ou saudável. Isso se deve ao fato do crescimento fetal ser basicamente mediado pela insulina. Por outro lado, a insulina do bebê tem tudo a ver com a alimentação e a glicemia materna. Quanto mais alimento à base de carboidrato for ingerido pela gestante, mais açúcar será levado até o bebê através do cordão umbilical e mais insulina será produzida por ele.

O mal de tudo isso é que essa criança nunca será um adulto normal e terá, ao longo de sua vida, um pâncreas com uma produção excessiva de insulina, maior número de células de gordura em todo o seu corpo e as inevitáveis conseqüências dessas alterações: obesidade e diabetes. Apesar de não sabermos se seus pais, principalmente sua mãe tem obesidade, ela certamente tem algum grau de diabetes, incluindo o que chamamos de pré diabetes. Essas alterações podem esconder a doença durante muitos anos.

Mesmo em mães diabéticas, esse desfecho tão desfavorável pode perfeitamente ser evitado quando elas são convenientemente orientadas em termos nutricionais, controlando o ganho de peso e as taxas do açúcar no sangue. Suas crianças nascem de peso normal e com boas perspectivas de saúde na vida adulta.

Nós brasileiros temos muito a aprender com o grande bebê chinês, principalmente porque o Brasil tem andado a passos largos rumo ao pódio, quando o assunto é a obesidade, inclusive a obesidade infantil. Em nosso último grande inquérito epidemiológico conduzido pelo IBGE, nós nos demos conta de que um terço de nossas crianças tem sobrepeso e metade delas já preenchem os critérios de obesidade. Esses valores não tem nada a perder para a China e nos alerta para a necessidade de que programas sérios e bem conduzidos sejam urgentemente implementados no sentido de  frear essa epidemia. Isso deve começar muito cedo, de preferência na vida fetal.

 

 

Por Citen às 08h47

03/02/2012

Como anda o tratamento da obesidade sem os medicamentos suspensos pela ANVISA?

Há cerca de um mês o tratamento da obesidade teve mais da metade de seus medicamentos suspensos pela Anvisa. Atualmente, constam apenas dois medicamentos com indicações de bula para o uso na obesidade e mesmo assim, eles tem várias restrições e não podem ser usados em uma grande parte desses pacientes. Nesse contexto, tem aumentado consideravelmente o uso de medicamentos “off label” ou seja, sem indicação de bula para o tratamento da obesidade.

Como discutido recentemente em um webmeeting da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia há vários usos “off label” de medicamentos em medicina, principalmente em pediatria e psiquiatria. Todos eles vem sendo usados com bons efeitos, principalmente na ausência de outras drogas que tenham indicação precisa. Medicamentos antidepressivos muito úteis na TPM, medicamentos anticonvulsivantes com efeito analgésico nas dores da enxaqueca e nos transtornos do humor, medicamentos antiinflamatórios nas cólicas menstruais. Todos eles se mostram eficazes, são utilizados com muita frequência e não há em suas bulas qualquer menção a essas indicações.

Especificamente na obesidade, vários medicamentos “off label” tem se mostrado eficazes.  Há alguns anos nós temos notado um crescente número de pacientes obesos com comportamentos alimentares inadequados, cuja principal característica é comer muito e, principalmente, comer sem fome. Nota-se nesses pacientes um fator impulsivo pela busca do alimento, muito parecido com aquele responsável por outros impulsos como fumar, beber ou comprar.  Nesse grande grupo de obesos, os medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais tem sido alguns anticonvulsivantes, antidepressivos e medicamentos cuja indicação de bula são direcionados para a interrupção do fumo e para o alcoolismo.

Os trabalhos científicos demonstram que os comportamentos alimentares compulsivos não são tão raros como pensávamos. Eles chegam a ser encontrados em até 30% das estatísticas na população em geral e vai muito além desses valores em grupos de obesos. Em todos esses pacientes, os medicamentos que reduzem o apetite são muito pouco eficientes e, algumas vezes, podem até gerar ou agravar um quadro de ansiedade que geralmente se associa com os transtornos do impulso.

A obesidade é doença crônica grave, recidivante e progressiva. Como outras doenças crônicas, a obesidade necessita, na maioria das vezes, tratamento medicamentoso contínuo. Como as demais doenças crônicas, a obesidade sofre recidiva quando se suspende os medicamentos, traz conseqüências orgânicas e psíquicas graves e inviabiliza qualquer projeto de vida saudável. As agências reguladoras precisam entender isso para conseguirem enxergar a obesidade para além do contexto estético que sempre alegam ao retirarem do mercado, suas poucas opções terapêuticas.

Outro fator preocupante é a multiplicidade de compostos descritos como suplementos naturais que alcançam aprovação das agências reguladoras sem estudos que comprovam suas alegações. Nesses tempos de escassez real de medicamentos eficazes para o tratamento da obesidade, eles são vendidos largamente em farmácias por todo o país alegando poderes verdadeiramente milagrosos no combate à obesidade. Alguns deles acabam por serem proibidos pela Anvisa, como aconteceu no último dia 02 de fevereiro com o composto chamado Max Burn, ou anteriormente com a Caralluma,  após ampla vendagem num curso conhecido de procura por esses compostos naturais em todo o verão. 

Com a recente suspensão por parte da Anvisa de 3 medicamentos muito utilizados no tratamento da obesidade, dois deles ainda comercializados nos Estados Unidos, nosso receituário tem se utilizado do uso “off label” de medicamentos com muito mais freqüência, principalmente nos 30% dos obesos nos quais o comportamento alimentar pode ser diagnosticado como compulsivo. Entretanto, a prescrição “off label” de medicamentos deve ser feito por médicos especialistas e com experiência no tratamento desses pacientes. 

Por Citen às 08h58

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Sobre o blog

Comer corretamente pode parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje. O tempo é curto, a ansiedade generalizada e as informações são, muitas vezes, simplistas e tendenciosas, idealizando alguns alimentos e difamando outros. Esquecemos da premissa que, em Nutrição, não existem alimentos ruins, e sim dietas inadequadas. A idéia deste blog é esta - mostrar que a dieta ideal é possível e prazerosa. Juntos, podemos controlar calorias e balancear os nutrientes, respeitando as nossas emoções.

Sobre as autoras

Dra. Ellen Simone Paiva -

Endocrinologista e nutróloga, diretora do Citen (Centro Integrado de Terapia Nutricional). Mestre na área de Nutrição e Diabetes pela USP e especialista em Transtornos Alimentares pela Unifesp. Colunista dos sites Minha Vida, Guia do Bebê e do Blog de Especialistas da Dican.


Dra. Amanda Epifânio Pereira -

Nutricionista, especialista em Nutrição de Doenças Crônicas pelo Hospital Israelita Albert Eistein e em Transtornos Alimentares pela Unifesp.

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