Blog Comer Sem Culpa

29/02/2012

Nem todos os gordinhos são doentes

É bem certo que a maioria deles nos procura para emagrecer por motivos estéticos. Se sentem saudáveis e não estão preocupados com doenças. Infelizmente, a evolução dessas pessoas e seu futuro estarão estreitamente ligados a doenças associadas à obesidade. Mas nem todo gordinho é doente.

É muitas vezes irritante ver os exames de alguns desses pacientes. Todos impecáveis. Não há elevação do colesterol, o açúcar do sangue é até mais baixo que a média para a idade. Pressão arterial de criança. Mas o sobrepeso ou até a obesidade está ali, à nossa frente, e não nos deixa nenhum sinal para que sirva de alerta em nossas recomendações. São mesmo saudáveis alguns gordinhos.

A primeira característica desses pacientes é a sorte que tem por não possuírem nenhum antecedente familiar de doença metabólica. Nenhum diabético, ninguém hipertenso ou infartado na família. Além disso, esses gordinhos são realmente um bom garfo para todos os tipos de alimentos, principalmente frutas e verduras. Se pintar uma sobremesa, eles não pensam duas vezes e saboreiam como um manjar dos Deuses. São geralmente bem dispostos e apesar de alguns deles não praticarem atividade física, não são sedentários.

A principal característica física desses gordinhos saudáveis é a distribuição da gordura corporal. Eles são gordinhos por inteiro e não há depósito preferencial de gorduras  em tronco e abdome. A gordura abdominal sinaliza o potencial de doenças em magros e gordos. Um sinal muito freqüente de saúde nos gordinhos é o acúmulo de gordura em nádegas e coxas. Um exemplo disso, são mulheres de cintura fina e quadril largo. Elas podem mesmo não serem esteticamente bonitas, mas fazem parte do grupo de gordinhos saudáveis.

Essas pessoas podem até fazer tratamentos para emagrecer. E até devem fazê-lo se isso as deixa mais confortáveis e contentes com a sua imagem corporal. Mas em nenhum momento devem procurar alcançar padrões estéticos rigorosos. Devem respeitar seu biótipo e preservar a dádiva de seus atributos. 

Por Citen às 13h14

27/02/2012

Nem todos os magros são saudáveis

Realmente, vivemos enaltecendo os magros como modelos de saúde. Sabemos até que vivem mais, que se livram de grande parte das doenças crônico-degenerativas, pois a maioria delas está muito relacionada ao sobrepeso e obesidade. Mas há magros doentes.

A curva de saúde relacionada ao peso é bem clara. Trata-se de um traçado em forma de uma letra U, onde os extremos de peso estão nitidamente relacionados à doença e a uma menor expectativa de vida. Daí, nós chegamos ao IMC (índice de massa corpórea, que é a razão do peso pelo altura em metros ao quadrado) médio de 25, pois ele se localiza no ponto médio da letra U e se relaciona aos menores índices de mortalidade por doenças crônicas, dentre elas o diabetes, o câncer e as doenças cardiovasculares.

Quando dizemos que um IMC é baixo e arriscado, significa que estamos beirando a marca da desnutrição e isso se situa por volta do IMC de 18kg/m2 de superfície corporal. Esse número não é aleatório, pois ele foi definido exatamente pelo ponto da curva em U onde o índice das doenças crônicas e taxa de mortalidade começam a se elevar de forma progressiva, relacionando definitivamente baixo peso e risco de doenças.

Assim a magreza nem sempre significa saúde. Há os magros que se alimentam bem e são saudáveis e há aqueles que se mantêm magros porque comem mal e geralmente comem muito pouco para atender às demandas de saúde.  São magros desnutridos. Há magros que assim se mantém por que fumam muito e comem pouco, há magros que abusam do álcool, há principalmente os magros ansiosos, que reclamam por que perdem peso ao primeiro sinal de preocupação com os acontecimentos da vida diária, ou até mesmo sem motivo. Esses magros, geralmente jovens, frequentemente procuram ajuda médica e nutricional para ganhar peso, mas tem muita dificuldade para comer corretamente, pois perdem o apetite frente a qualquer fator estressante. Muitos deles tem gastrites, revelando seu ponto fraco frente às dificuldades da vida diária, o estômago.

Quando a saúde se relaciona a peso, isso certamente ocorre para aquelas pessoas que se alimentam corretamente, respeitando as suas necessidades nutricionais e aliando-as ao prazer de comer. Comem todos os grupos de alimentos, definem bem suas refeições, não exageram nas porções e uma característica fundamental, tem saciedade sinalizando o momento de parar de comer. Esses magros são sempre saudáveis e podem até ser exceções em pontos extremos da curva em U. 

Por Citen às 09h01

23/02/2012

A possibilidade de aprovação de um medicamento emagrecedor mobiliza o mundo

 

Estamos falando de uma droga emagrecedora. Aparentemente muito potente. Trata-se do Qnexa, uma droga que associa o poder inibidor do apetite de uma anfetamina, a fentermina, muito semelhante ao femproporex que foi proibido recentemente no Brasil pela Anvisa, com o topiramato, um anticonvulsivante que tem se mostrado muito eficaz no tratamento da compulsão alimentar.

Quando pensamos que comemos por fome e por vontade de comer, podemos imaginar o poder desse medicamento, que simplesmente atua nas duas vias que nos impulsiona a comer. Conhecemos bem o poder de cada um, pois já os usamos em nosso pacientes que buscam ajuda para emagrecer. A anfetamina é estimulante do Sistema Nervoso Central e pode causar excitação e insônia, mas o topiramato tem um efeito inverso, podendo perfeitamente se ajustar a ela, inclusive reduzindo seus efeitos indesejáveis.

Desde ontem, esse medicamento é manchete no The Wall Street Journal e no The New York Times. E nem recebeu ainda a chancela do FDA. O que ocorreu é que ontem saiu o resultado de um painel consultivo de votação, composto por médicos especialistas não pertencentes ao FDA e que decidiu por 20 votos a 2 que a droga teria benefícios que superam seus riscos e que deveria ser aprovada. A agência americana geralmente segue o conselho dos seus painéis, mas isso não é obrigatório. O FDA deverá dar seu parecer final no dia 17 de abril próximo.

Como será a postura da Anvisa caso o medicamento seja aprovado? Por aqui não podemos usar nenhum derivado anfetamínico, pois eles foram proibidos em dezembro passado pela agência reguladora. Parece que estamos na contramão do tratamento da obesidade e longe da conscientização de nossos técnicos como parece ocorrer nos Estados Unidos.  Quem sabe a possibilidade do Qnexa após 13 anos sem que nenhum outro emagrecedor seja aprovado, pese na avaliação da Anvisa. Será que eles serão capazes de voltar atrás em sua rigorosa decisão? É certamente o que esperamos

 

Por Citen às 20h22

22/02/2012

Dietas desintoxicantes. Não acreditem nisso!


Todo ano é a mesma conversa. Por isso, nós também somos obrigados a ser repetitivos. Alertar sobre os absurdos que se dizem a cerca da desintoxicação. Festas de final de ano, carnaval ou qualquer período de abuso de alimentos e bebida alcoólica são os períodos de maior risco das pessoas se exporem a dietas que pregam a limpeza do organismo. Não caia nessa cilada, pois ela é muito mais arriscada do que todo o abuso cometido previamente.

Inicialmente essas dietas eram sutis, citadas de maneira rápida em discursos subjetivos que propunham eliminar toxinas. Mas não passavam de dieta líquida, com o objetivo de hidratar o corpo após períodos de ingestão alcoólica pesada e exageros alimentares. Apesar de não convencerem, causavam no máximo um quadro de fraqueza. Posteriormente, elas foram se tornando mais invasivas e  perigosas. Passaram a pregar longos períodos de ingestão líquida, interromper ou aumentar a ingestão de sal, usar laxativos potentes sob a designação de naturais, capazes de impor ao corpo uma perda enorme de água e eletrólitos. Como se não bastasse, a ousadia dessas dietas foi além, pois passaram a incluir várias sessões diárias de lavagem intestinal, que deram o nome de hidroterapia do cólon. A alegação das pessoas que fazem ou ensinam tais tratamentos e a de que eles eliminam toxinas, impurezas e “sujeiras” do corpo e emagrecem.

Não faltam as celebridades, que logicamente dão seu testemunho de perda de muitos quilos em poucos dias e de grande bem estar e leveza ao realizarem tal tratamento. Apesar das várias opiniões contrárias, dos alertas de perigo de tais procedimentos por parte de médicos e nutricionistas, eles continuam a ser prescritos, ignorando o aconselhamento de estudiosos e pesquisadores da área da Nutrição. E as pessoas, desejosas de manterem a saúde, mas principalmente o peso, após abusos extremos, se deixam levar por explicações levianas e sem fundamento de que as dietas “detox” poderiam eliminar as “toxinas” advindas de alimentos e álcool em excesso.

As toxinas são, na verdade, substâncias produzidas por bactérias, que eventualmente podem contaminar alimentos e causar muito mal à saúde das pessoas. Assim é com a toxina que causa a cólera, o botulismo, o tétano, a difteria ou coqueluche. Assim também ocorre com cepas toxigênicas de bactérias que causam diarréia. Essa é a única forma de um alimento causar intoxicação. Quando ele está contaminado por toxinas.

A desintoxicação não tem também base endócrina ou nutricional. O nosso organismo é dotado de dois mecanismos muito sensíveis para eliminar substâncias indesejáveis e que não podem se acumular no nosso corpo. Através do fígado e dos rins nós podemos eliminar tais substâncias, que são expelidas através das fezes e urinas. Além disso, o nosso sistema imunológico é capaz de reagir às investidas dos diferentes microorganismos que podem causar doenças ou infecções. Ao contrário, essas dietas extremas e jejum são capazes de induzir grande desequilíbrio metabólico, perda de peso por desidratação, arritmias cardíacas e lesões neurológicas provavelmente relacionadas ao desequilíbrio hídrico e eletrolítico dos fluidos corporais. 

A confusão é ainda maior quando misturam toxinas com radicais livres. São coisas completamente diferentes.  Sabemos que os radicais livres são formados a partir do metabolismo celular e da respiração celular e estão ligados à principal teoria do envelhecimento e das doenças crônico-degenerativas. Logo, respirar e comer geram radicais livres. Não há como viver sem eles. Não há dieta que comprovadamente reduza a produção dos radicais livres durante um dia ou poucos dias.  Sabemos sim que,  dieta rica em frutas e vegetais utilizadas a longo prazo, tem poder antioxidante, pois esses alimentos são ricos em vitaminas antioxidantes. Mas isso tem que ser feito ao longo dos anos e se tornar rotineiro. Não tem o apelo do inédito ou das promessas absurdas dos benefícios a curto prazo.

Logo, nenhuma dessas dietas é realmente desintoxicante. Primeiro, porque não estamos intoxicados coisa nenhuma; segundo, porque nosso corpo é capaz de realizar a eliminação das substâncias potencialmente nocivas a ele  e geradas a partir do metabolismo celular; terceiro, porque no mínimo essas dietas não nos ajudam em nada, podendo causar fraqueza, desidratação e desequilíbrio dos sais minerais de nosso organismo.

Essas dietas desintoxicantes nada mais são do que mais um modismo. Uma forma muito pouco convincente e arriscada de nos redimir dos excessos alimentares e da culpa que eles nos causam. Ao invés de seguir as orientações pouco ortodoxas dessas dietas esdrúxulas, entendam que um erro não justifica um outro erro, revejam seus conceitos nutricionais e sejam mais críticos. Desacreditem das perdas de peso fáceis, dos medicamentos milagrosos, das práticas médicas não consagradas e não avalizadas pelo mundo acadêmico. Desacreditem dos procedimentos que não têm consenso. Que são praticados por uns poucos. Que não são ensinados nos bancos das escolas de medicina. E acreditem muito no poder de cada um em mudar a própria história e a própria doença, principalmente quando a nossa doença está sendo causada por nossos maus hábitos.

 

Por Citen às 13h50

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Sobre o blog

Comer corretamente pode parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje. O tempo é curto, a ansiedade generalizada e as informações são, muitas vezes, simplistas e tendenciosas, idealizando alguns alimentos e difamando outros. Esquecemos da premissa que, em Nutrição, não existem alimentos ruins, e sim dietas inadequadas. A idéia deste blog é esta - mostrar que a dieta ideal é possível e prazerosa. Juntos, podemos controlar calorias e balancear os nutrientes, respeitando as nossas emoções.

Sobre as autoras

Dra. Ellen Simone Paiva -

Endocrinologista e nutróloga, diretora do Citen (Centro Integrado de Terapia Nutricional). Mestre na área de Nutrição e Diabetes pela USP e especialista em Transtornos Alimentares pela Unifesp. Colunista dos sites Minha Vida, Guia do Bebê e do Blog de Especialistas da Dican.


Dra. Amanda Epifânio Pereira -

Nutricionista, especialista em Nutrição de Doenças Crônicas pelo Hospital Israelita Albert Eistein e em Transtornos Alimentares pela Unifesp.

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