Blog Comer Sem Culpa

27/06/2012

O impacto e a compreensão da capa da revista Veja

Essa semana, vários pacientes vieram ao consultório questionando sobre o teor ideal de gorduras de suas dietas. Dois deles, trouxeram a revista Veja, temendo não nos convencerem do teor da matéria. Na capa, a costelinha suína e a picanha, como os principais exemplos de gordura saturada que fazem parte do sonho de consumo de 8 entre 10 brasileiros. Até aí tudo bem a não ser que em letras garrafais e vermelhas lemos “a redenção da gordura”.

O fato em destaque foi a nova cartilha da Sociedade Brasileira de Cardiologia que aumenta a recomendação máxima tolerável de gordura saturada para 10% do valor calórico total. Isso significa que para uma dieta de 1800 calorias seria tolerável o consumo de até 180 calorias ou 20 gramas desse tipo de gordura. Então, na verdade, nada mudou para o Brasileiro que sempre comeu muito mais do que isso.

Usando o exemplo acima, essas 20 gramas de gordura saturada são facilmente alcançadas em dois bifes médios de filé mignon, um como de leite integral, duas fatias de queijo amarelo e 2 fatias de presunto. Mas a gordura saturada não está somente nas carnes, leites e queijos como estampado na capa da Veja. Com a redução da gordura hidrogenada dos alimentos industrializados, a  gordura saturada reapareceu em muito maior proporção em grande parte desses alimentos. E toda ela deve ser computada nessa conta de 20 gramas.

Pensando assim, é muito fácil ultrapassar essa marca dos 10% de gordura saturada e que a atual nova recomendação não mudou em nada o fato da gordura ser o nutriente mais calórico dentre todos. Isso vale até para as boas gorduras, que deixam de ser benéficas se concorrem para o ganho de peso.

A dieta balanceada sempre preconizou o equilíbrio entre os nutrientes. Todos eles são importantes e a redução de um deles, sempre acarretará o excesso de outro. Aprendemos que a demonização das gorduras como ocorreu na última década levou a ingestão de muito carboidrato, com pouca saciedade e muita insulina circulante. Com isso, mais obesidade e diabetes no mundo. Agora, não devemos fazer o mesmo, colocando o carboidrato como o grande vilão e aumentando as gorduras da dieta. O ciclo de obesidade agora com mais doença cardiovascular será o resultado óbvio. 

Por Citen às 10h59

25/06/2012

Infelizmente o alpiste não cura o diabetes

Você já ouviu falar de leite enzimático de alpiste? Nós acabamos de receber uma mensagem, dessas veiculadas pela internet, inclusive com fundo musical, contando maravilhas do poder curativo do alpiste. Nela, uma receita que transforma as sementinhas que alimentam pássaros em um milagroso remédio. Impossível não ser influenciado pelo vocabulário elaborado e pelas afirmações tão contundentes da matéria.

Falam em “recarga enzimática”, com uma criatividade surpreendente, pois infelizmente não temos nenhum medicamento capaz de recarregar enzimas. Seria possível que nossas enzimas fossem como baterias de aparelhos eletrônicos e que pudesses ser recarregadas diariamente? Seria bom se fosse verdade! Infelizmente, nem em ficção científica!

De acordo com a matéria, de autor desconhecido, o poderoso alpiste seria capaz de regenerar o pâncreas, eliminar a cirrose, combater a obesidade, melhorar a força muscular, reduzir as taxas de colesterol e agir como um potente diurético.

Todas as semanas nós encontramos propagandas de milagres como essa. Infelizmente, essa falsa ideia de ciência muitas vezes é veiculada por profissionais de saúde, deixando os pacientes a mercê de informações inverídicas e propensos a incorporarem terapias  alternativas, sem a menor comprovação, abandonando seus tratamentos convencionais.

A melhor orientação às pessoas que recebem esse tipo de informação é que conversem com seus médicos antes de aderirem a práticas alternativas, pois elas podem por em risco seu tratamento, principalmente quando se suspende a  medicação utilizada, em prol de um alimento ou remédio milagroso.   

 

Por Citen às 11h20

22/06/2012

A obesidade advinda do açúcar

Estudos realizados em ratinhos já revelaram o poder do açúcar em mudar o comportamento alimentar. Quando alimentados com ração para ratos eles comem, brincam, interagem e mantêm peso normal. Quando alimentados com ração advinda de alimentos processados, ricos em açúcar e proveniente de supermercados, eles passam a comer de maneira estranha, insaciável. Deixam de brincar para comer. Deixam de interagir para comer. Consequentemente, se tornam obesos.

Nos últimos 50 anos nós ficamos três vezes mais gordos. Apesar da origem multifatorial da obesidade, a progressão é tão alarmante que não conseguimos explicar apenas pelo sedentarismo do mundo ou pelo volume de alimentos ingeridos pelos povos. Há algo além desses fatores e o teor de açúcar dos alimentos está intimamente envolvido no processo. O nosso alimento mudou com a industrialização. No início dos anos 70, o lobby da indústria do açúcar ganhou mais espaço na produção dos alimentos, após a constatação de que a gordura seria um grande fator de risco para as doenças cardiovasculares.

Parece que quanto mais açúcar nós comemos, mais açúcar nós queremos comer e mais famintos nos tornamos. O açúcar parece levar ao vício, pois os receptores neuronais que codificam o sabor prazeroso dos alimentos doces são os mesmos que respondem ao álcool, ao tabaco e à cocaína. Isso poderia explicar a preferência das pessoas que comem doces compulsivamente, ou seja, que comem apenas pelo prazer de saborear determinados alimentos, ao invés de buscarem também o alimento quando sentem fome.

As estatísticas revelam que 60% das pessoas tem preferência pelos doces e a indústria de alimentos intuitivamente, ou talvez mais sistematicamente,  entendeu isso muito bem, tanto é que milhares de alimentos nos supermercados são enriquecidos com sacarose, para atender à demanda dos paladares.

Quando os custos do tratamento da obesidade superarem o ganho advindo dos impostos e da geração de empregos da indústria de alimentos, os governos não terão mais dificuldade em optar pela restrição a essa atividade econômica e isso não está longe de ocorrer. 

Por Citen às 23h49

19/06/2012

O papel de um governante na saúde dos cidadãos

O governador de Nova York Michael R. Bloomberg tem demonstrado aos chefes de estado de todo o mundo as reais possibilidades de um político em mudar o estilo de vida e interferir na saúde de seus cidadãos e eleitores. Ele proibiu o fumo em bares, praticamente aboliu a gordura trans dos alimentos servidos em lanchonetes e restaurantes, criou a maior rede de ciclovias jamais alcançada por outro administrador público, obrigou a descrição das calorias dos alimentos disponíveis nos cardápios e finalmente acaba de propor a proibição da fabricação e venda de refrigerantes e sucos adocicados em um volume maior que 480mL.

A indústria que entende que isso afetará seus lucros alega, como os fabricantes de cigarro, que a prerrogativa de comer muito ou fumar muito é de cada um e que não têm mesmo nada a ver com as taxas de obesidade no mundo. Assim como a indústria do tabaco tem conseguido argumentar que não é responsável pelos casos de enfisema pulmonar, câncer e doenças cardiovasculares, apesar do fato ser reiteradamente comprovado pela pesquisa científica mundial.

Nos últimos 20 anos, uma onda líquida inundou as gôndolas dos supermercados com repercussão sobre as despensas e geladeiras das residências em todo o mundo. Incorporamos à nossa dieta calorias extras, provenientes de sucos de frutas, bebidas de soja, chás e refrigerantes. São centenas de produtos líquidos com rótulos pouco elucidativos, escritos em letra miúda, com ingredientes difíceis de serem compreendidos até pelos profissionais da área de Nutrição.

Expostas a essa carga de líquidos de sabor doce, pessoas de todas as idades passaram a mudar seus hábitos, incorporando calorias, açúcares e adoçantes, em volumes jamais pensados. Como resultado, sobrepeso e obesidade passaram a constar entre os maiores problemas de Saúde Pública em todo o mundo. Nesse contexto, a excessiva ingestão de alimentos líquidos industrializados e de sabor doce, passou a figurar entre as principais causas de obesidade em todo o mundo, principalmente entre crianças e adolescentes, que passaram a se hidratar essencialmente por meio destes alimentos, abandonando definitivamente a água.

Ao mesmo tempo, o tamanho das porções de refrigerantes, pipocas, batatas fritas e mesmo dos hamburgueres aumentou assustadoramente. Servem-se baldes de pipocas, copos que cabem litros de refrigerantes, sanduíches astronômicos e pizzas gigantes, com o apelo de serem mais baratos. Além disso, agrupam-se alimentos muito calóricos como batatas fritas, sanduíches, refrigerantes e sorvetes em promoções que, individualizadas, sairiam mais caras, induzindo ao maior consumo desses alimentos. Com isso, compramos mais calorias por unidade de moeda de qualquer país e acabamos erroneamente por achar isso vantajoso, compramos muito mais do que comeríamos e comemos muito mais do que deveríamos.

O Prefeito de Nova York deu o primeiro e significativo passo para a redução das porções dos alimentos, começando pelos sucos e refrigerantes. Esperamos que ele sirva de exemplo para os governantes que fazem política de fachada e baseada em atitudes pouco eficazes e que não têm coragem de enfrentar o lobby da indústria de alimentos. Enquanto esperamos por essas medidas, nós podemos sim optar por menores porções de alimentos, mesmo que com isso, tenhamos que pagar um pouco mais por unidade do produto. Nossa saúde ganhará muito com essa escolha.   

Por Citen às 08h56

Ir para UOL Ciência e Saúde

Sobre o blog

Comer corretamente pode parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje. O tempo é curto, a ansiedade generalizada e as informações são, muitas vezes, simplistas e tendenciosas, idealizando alguns alimentos e difamando outros. Esquecemos da premissa que, em Nutrição, não existem alimentos ruins, e sim dietas inadequadas. A idéia deste blog é esta - mostrar que a dieta ideal é possível e prazerosa. Juntos, podemos controlar calorias e balancear os nutrientes, respeitando as nossas emoções.

Sobre as autoras

Dra. Ellen Simone Paiva -

Endocrinologista e nutróloga, diretora do Citen (Centro Integrado de Terapia Nutricional). Mestre na área de Nutrição e Diabetes pela USP e especialista em Transtornos Alimentares pela Unifesp. Colunista dos sites Minha Vida, Guia do Bebê e do Blog de Especialistas da Dican.


Dra. Amanda Epifânio Pereira -

Nutricionista, especialista em Nutrição de Doenças Crônicas pelo Hospital Israelita Albert Eistein e em Transtornos Alimentares pela Unifesp.

Histórico