Blog Comer Sem Culpa

31/07/2012

O estímulo para comer doces pode ter origem hormonal

Uma das nossas maiores dificuldades em manter o peso ideal é a dificuldade em controlar nossa ingestão de doces. Mesmo após grandes  refeições, é difícil abrir mão da sobremesa, pois o estímulo para o consumo de doces não tem nada a ver com fome.

Recentemente, por ocasião da 94ª conferência da The Endocrine Society que ocorreu em Houston no Texas, um trabalho científico demonstrou que essa preferência pelos doces seria promovida por um hormônio chamado Grelina. De acordo com os autores, ratinhos sem os receptores para esse hormônio comeram muito menos doces após receberem sua refeição normal do que aqueles com os receptores intactos. Ou seja, a ação da Grelina promoveria um estímulo à ingestão de alimentos doces, mesmo após refeições copiosas.

Os autores liderados por Veronique St-Onge, da Carleton University de Otawa no Canadá, reconhecem o efeito do sedentarismo, do stress da vida moderna e do ciclo gerado por eles no efeito da recompensa com uma maior ingestão de alimentos. Mas afirmam que seu estudo indica que o hormônio Grelina participaria do processo e seria uma importante possibilidade terapêutica no tratamento da obesidade.

O efeito chamado pelos autores de “fenômeno da sobremesa” fez com que os ratinhos comessem muito mais “cookies” após receberem sua refeição livremente foi ligado à Grelina, um hormônio reconhecidamente estimulador da fome e que agora foi  demonstrado atuar mesmo no estômago cheio. A partir de agora, devem começar estudos em humanos, para avaliar a ação da Grelina na busca pelo sabor doce e não apenas no estímulo da fome.

De acordo com os autores, esses resultados demonstram que um hormônio estaria envolvido no prazer de comer e na dificuldade que isso impõe ao término normal de uma refeição prazerosa. Além disso, essa compreensão nos possibilitará a busca por novas abordagens terapêuticas para o controle da obesidade, principalmente quando ela advém do consumo excessivo de alimentos doces e palatáveis.

Por Citen às 08h41

27/07/2012

Um mês promissor para o tratamento da obesidade

Há 13 anos não temos nenhum novo medicamento para emagrecer. Na verdade, ocorreu o inverso, pois a maioria dos medicamentos disponíveis para o tratamento da obesidade foi proibida na maioria dos países, inclusive no Brasil. No último dia 27 de junho o FDA aprovou a Lorcaserina, quebrando o longo jejum, que nos deixou a revelia de fitoterápicos completamente ineficientes e suplementos que prometiam maravilhas nunca alcançadas.

Em meados de Julho uma nova e promissora droga foi aprovada, a associação do topiramato com a fentermina. Uma potente associação emagrecedora de um medicamento que reduz o comer por impulso (topiramato), com outra que efetivamente reduz a fome, uma anfetamina. Isso mesmo, esses medicamentos, já comercializados nos Estados Unidos há muitos anos foram associados em um único medicamento.

Essa ação do FDA revela uma mudança dos ventos que sopram sobre a imensa população de obesos em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos. Aparentemente, os governos e agências reguladoras começaram a entender que a obesidade pode por em risco a saúde das pessoas, sua expectativa de vida, bem como a economia dos povos com gastos exorbitantes no tratamento das suas complicações.

Os argumentos das agências reguladoras para proibirem a entrada no mercado de vários medicamentos que antecederam a solicitação da Lorcaserina foram até anedóticos. Muitos medicamentos foram barrados por conta de um risco cardiovascular hipotético, apesar da maioria dos medicamentos, aprovado pelas mesmas agências, não comprovam total segurança cardiovascular. Outros foram reprovados com o argumento de serem muito eficazes, podendo levar a dependência psíquica das pessoas ao seu efeito emagrecedor.

A Lorcaserina atua antecipando a sensação de saciedade durante as refeições. Isso é por si só vantajoso, pois ela não causa redução ou abolição da fome. A sensação de fome é fisiológica e saudável. Permite que o paciente faça suas refeições normalmente. O novo medicamento promete reduzir o volume de alimento necessário para que o paciente se sinta saciado e nos estudos clínicos revelou um efeito mais potente que a sibutramina, nosso único medicamento disponível para o tratamento da obesidade.

A associação topiramato + fentermina é ainda mais arrojada e mais eficaz na perda de peso do que nosso único medicamento aprovado no Brasil para o tratamento da obesidade, a sibutramina. Por aqui, todas as anfetaminas foram proibidas em dezembro de 2011 restando para a grande maioria de pacientes obesos, que não toleram sibutramina, muita força de vontade, como se eles fossem obesos por pura falta de vontade de conseguir um peso mais compatível.

Bons ventos esses, que terão a possibilidade de reduzir o preconceito do tratamento da obesidade, bem como de possibilitar a milhares de obeso um tratamento medicamentoso tão necessário.  

Por Citen às 09h37

24/07/2012

Calorias são todas iguais?

Será que uma caloria de qualquer grupo nutricional tem o mesmo significado? Ou seja, será que 100 calorias de líquidos doces (como Coca Cola ou Gatorade) têm o mesmo significado que 100 calorias de pão de farinha branca ou de batatas fritas,  brócolis ou feijão?  Será que se você queimar as 100 calorias através de atividade física regular, a diferença entre esses alimentos não teria importância?

Há fortes evidências de que as calorias sejam bem diferentes, nos diferentes tipos de alimentos, principalmente em sua metabolização. Recentemente, um estudo publicado na revista médica the Journal of the American Medical Association (JAMA), por uma equipe do Boston Children’s Hospital, avaliou dietas com as mesmas quantidades de calorias, mas com proporções diferentes de carboidratos, proteínas e  gorduras.

A primeira dieta estudada foi com baixo teor de gorduras e rica em carboidratos(60%). A segunda dieta foi muito restrita em carboidratos (10%) e rica em gorduras e proteínas, como a proposta pelo Dr Atkins. A terceira dieta foi chamada de baixo índice glicêmico, pois utilizou quantidade intermediária de carboidratos (40%) com baixa capacidade de causar picos de glicose no sangue. São carboidratos naturais ou minimamente  processados, provenientes de frutas, vegetais sem amido, leguminosas e castanhas.

Ao avaliar o metabolismo corporal dos pacientes submetidos às três dietas, os autores encontraram a primeira diferença entre elas. A dieta pobre em carboidratos induziu a uma queima extra de 350 calorias ao dia em relação à dieta rica nesse nutriente, o equivalente à uma hora de exercícios físicos moderados. Apesar disso, a dieta do Dr Atkins cursou com alterações nos marcadores inflamatórios do sangue, fatores esses ligados ao risco cardiovascular e à mortalidade.

A dieta rica em carboidratos foi a que induziu a menor queima calórica entre as três.  Essas dietas causam  picos de açúcar no sangue, que por sua vez estimulam a produção de quantidades extras de insulina. Esse hormônio tem a característica de armazenar as calorias ao invés queima-las.  Além disso, essa dieta induziu a alterações importantes, como elevação dos triglicérides e redução da fração boa do colesterol, o HDL.

A dieta de baixo índice glicêmico induziu à queima extra de 150 calorias em relação à dieta rica em carboidratos, o equivalente a uma hora de exercícios físicos leves, sem as alterações metabólicas das duas outras. A conclusão dos autores é de que as calorias são mesmo diferentes e que é chegado o momento de reduzirmos ao máximo o consumo de carboidratos processados, pois dessa forma teremos mais chances de alcançar e manter peso ideal, bem como de evitar doenças relacionadas à alimentação. 

Por Citen às 08h09

19/07/2012

Efeitos da obesidade sobre o hormônio masculino

Muitos trabalhos anteriores já revelaram a ligação entre os níveis da testosterona e o peso corporal de homens, principalmente com Síndrome Metabólica. Esses pacientes têm obesidade central (abdome), tendência ao diabetes, hipertensão arterial e alterações do perfil das gorduras do sangue com elevação dos triglicérides e redução do HDL colesterol. Associado a isso, eles geralmente têm níveis de testosterona mais baixos que seus pares.

Apesar dessas evidências, nós ainda não tínhamos a comprovação de que a perda de peso em homens obesos poderia ter um efeito inverso, ou seja, causar elevação nos níveis da testosterona. Isso foi recentemente demonstrado por um estudo apresentando na 94ª reunião anual da The Endocrine Society em Houston no Texas. O autor do estudo foi o professor emérito da Universidade da Pensilvânia, o Dr Zalman Agus.

O estudo foi patrocinado pela Sociedade Americana de Diabetes e envolveu 900 pacientes do sexo masculino. Eles tinham em comum níveis de testosterona considerados baixos (< 300ng/dL), IMC por volta de 32kg/m2 (o que conferia o diagnóstico de obesidade), circunferência de abdome acima de 100cm (obesidade central), idade em torno de 50 anos e exames sugestivos de pré diabetes (glicemia de jejum em torno de 108mg/dL e hemoglobina glicosilada em torno de 6%).

Os pacientes foram submetidos à intervenção durante um ano, divididos em três grupos. Um grupo foi medicado com metformina, o outro recebeu placebo (um medicamento sem efeito) e outro recebeu orientações com modificações no estilo de vida com dieta e atividade física durante uma hora e meia por semana.

Os homens que mudaram estilo de vida perderam em média 7,7kg e tiveram melhora nos níveis da testosterona em quase 50% deles. Nesse grupo, 20% tinham baixos níveis de hormônio masculino e essa taxa caiu para 11% após um ano de intervenção. Aqueles tratados com metformina perderam em média 2,7kg e não tiveram melhora em seus níveis de testosterona, apesar desse medicamento melhorar significativamente o quadro metabólico desses pacientes. O grupo que receberam placebo não perdeu peso. Logo, parece que a atividade física e a perda de peso foram fundamentais para a melhora dos níveis de testosterona nesses pacientes. Pensando assim, a perda de peso deveria ser a primeira intervenção para o tratamento de homens obesos e com queixas de disfunção erétil e/ou redução da libido. 

Por Citen às 08h44

16/07/2012

Os riscos dos exercícios físicos intensos

Todos nós sabemos dos inúmeros benefícios dos exercícios físicos para a nossa saúde. Estamos acostumadas a orientar nossos pacientes a incluir ginástica em suas vidas como uma forma bem avaliada e comprovada de ampliar os efeitos de uma dieta balanceada e dos tratamentos medicamentosos para uma infinidade de doenças crônicas, principalmente aquelas associadas a risco cardiovascular.

No último mês de junho, uma equipe médica liderada pelo Dr Jame O'Keefe,  do Hospital Saint Luke em Kansas City, conduziu um estudo que revelou algo preocupante. De acordo com o estudo, embora sejam reconhecidos os benefícios da atividade física moderada e regular, influenciando de maneira benéfica a longevidade, a saúde cardiovascular e a prevenção de doenças crônicas, exercícios físicos intensos poderiam levar a lesões miocárdicas de variada intensidade com riscos reais à vida dos atletas. O estudo foi publicado na revista médica Mayo Clinic Proceedings.

No dia 27 de março de 2012, Micah True, um famoso maratonista de 58 anos morreu subitamente durante um treino de rotina de 12 milhas, embora ele estivesse acostumado a distâncias muito maiores que essa. Micah chegava a correr 100milhas em um único dia. A autópsia do atleta revelou um coração aumentado de volume, além de lesões em seu coração que teria desencadeado uma alteração grave em seus batimentos cardíacos ou seja, uma arritmia cardíaca fatal.

De acordo com os cardiologistas que conduziram o estudo em Kansas City, o coração de Micah teria sido acometido por uma patologia desencadeada pelo excesso de atividade física e explicam o fato com semelhante ao excesso de qualquer medicamento estimulante do sistema cardiovascular. Esses medicamentos, que em doses certas protegem o coração, podem ser extremamente perigosos em doses acima das preconizadas. Assim, também, os exercícios físicos teriam o mesmo comportamento que esses medicamentos.

Os maiores riscos foram imputados às longas maratonas e provas de ciclismo, além das modalidades de triatlon. Atividade física intensiva e prolongada, com esses esportes e tantos outros praticados com a mesma intensidade, causariam lesões estruturais ao músculo cardíaco, de maneira repetitiva, por meses ou anos. A evolução de tais pequenas e múltiplas lesões seria a fibrose e quadros de arritmia cardíaca, algumas vezes fatais.

Nas conclusões do estudo em questão, seus autores afirmam que “pessoas fisicamente ativas são muito mais saudáveis do que aquelas sedentárias e que os exercícios físicos são os mais importantes itens para um estilo de vida saudável. Entretanto, o que esse trabalho científico revela é que os benefícios ocorrem numa faixa de atividade física  leve a moderada e que a medida em que se intensifica mais e mais essa atividade, eles se tornam menos eficazes.” E ainda concluem que “além dos 30 a 60 minutos diários, nos alcançaríamos esse limite de benefícios e os retornos à saúde passariam a ser muito menores ou a não ocorrer.”

Por Citen às 09h37

Ir para UOL Ciência e Saúde

Sobre o blog

Comer corretamente pode parecer uma tarefa impossível nos dias de hoje. O tempo é curto, a ansiedade generalizada e as informações são, muitas vezes, simplistas e tendenciosas, idealizando alguns alimentos e difamando outros. Esquecemos da premissa que, em Nutrição, não existem alimentos ruins, e sim dietas inadequadas. A idéia deste blog é esta - mostrar que a dieta ideal é possível e prazerosa. Juntos, podemos controlar calorias e balancear os nutrientes, respeitando as nossas emoções.

Sobre as autoras

Dra. Ellen Simone Paiva -

Endocrinologista e nutróloga, diretora do Citen (Centro Integrado de Terapia Nutricional). Mestre na área de Nutrição e Diabetes pela USP e especialista em Transtornos Alimentares pela Unifesp. Colunista dos sites Minha Vida, Guia do Bebê e do Blog de Especialistas da Dican.


Dra. Amanda Epifânio Pereira -

Nutricionista, especialista em Nutrição de Doenças Crônicas pelo Hospital Israelita Albert Eistein e em Transtornos Alimentares pela Unifesp.

Histórico